Recentemente o site ClicRBS passou a contar com uma página sensacional: Sua Língua, de autoria do professor Cláudio Moreno (http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/). Moreno dispensa apresentações. É e foi professor de diversos estabelecimentos de ensino do Rio Grande do Sul, e é raro encontrar um gaúcho que ainda não tenha sido seu aluno, principalmente em cursinhos pré-vestibulares. A página é uma maravilha pra quem se interessa pela língua portuguesa. Traz dicas, questões atuais envolvendo o uso da língua, curiosidades, lições de gramática, etimologia. Ah, e está toda atualizada segundo o Acordo Ortográfico. Enfim, é um prato cheio! Vale a pena acessar e buscar ali, corriqueiramente, subsídios para um uso cada vez melhor de nossa língua portuguesa! http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/
Coluna de Pasquale Cipro Neto, publicada no jornal Folha de S. Paulo de 02 de julho de 2009, p. C2.
"Museu tem acervo roubado"
Se perguntarmos a um grego ou a um turco o que eles acham do acervo de certos museus europeus...
"DAR MURROS em ponta de faca." É essa a sensação que se experimenta quando se leem títulos como o desta coluna. A preciosidade, é bom que se diga, é real -e não é desta Folha. O leitor habitual deste espaço sabe muito bem que volta e meia comento pérolas da casa e as identifico; quando a obra-prima é de lavra alheia, silencio (como convém). Posto isso, permita-me perguntar-lhe, caro leitor: que se entende do título em questão? Tomada na sua essência, a frase informa que o que o museu X expõe é roubado. Tá dominado, tá tudo dominado! Essa bobagem resulta de um chatíssimo modismo: o uso de "ter" como verdadeiro cola-tudo, como se vê, por exemplo, em "Brasil tem proposta aprovada na ONU", que pode muito bem virar "Proposta do Brasil é aprovada na/pela ONU". Dia desses, ouvi esta pérola: "A mulher teve o marido entre os 12 feridos". Não, caro leitor, você não está lendo a coluna do querido Zé Simão, mas, como diria o brilhante articulista, a pobre mulher pariu o marido em pleno campo de batalha... E ao lado de 12 bravos combatentes alvejados! Rarará! Custa muito dizer pura e simplesmente que o marido de Fulana é um dos 12 feridos ou que um dos 12 feridos é o marido de Fulana? Parece que custa. Se não custasse, não se leriam ou ouviriam essas e outras pérolas, como: "A empresa teve um de seus ônibus destruído". Basta dizer que um dos ônibus da empresa foi destruído. Mas voltemos ao museu e a seu "suspeitíssimo" acervo, fruto de furtos, roubos, falcatruas etc. Como me lembra o nosso querido Hélio Schwartsman, se perguntarmos a um grego ou a um turco o que eles acham do monumental acervo de certos museus europeus... A solução? Pois é aí que a coisa começa a enroscar. A melhor redação talvez esbarrasse no velho problema do espaço ("Título bom é título que cabe", lembra?). Algo como "Acervo de museu é roubado" mantém a ruindade. Parece que as saídas são um tanto óbvias: "Acervo de museu é levado/furtado por ladrões", "Ladrões roubam/ furtam acervo de museu" etc. Se alguém já está pensando que o problema está no emprego do verbo "ter" e que a solução é pura e simplesmente não empregá-lo, vou logo dizendo que a coisa não é bem assim. O problema está em determinados usos, que criam mais confusão do que boas soluções. Para não dizer que não falei das flores, sugerirei um exemplo de bom uso do verbo "ter". Recorrerei ao grande poeta mineiro Murilo Mendes e à sua antológica e genial "Canção do Exílio": "A gente não pode dormir / com os oradores e os pernilongos / Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda". Como o caro leitor pôde ver, Murilo empregou o verbo "ter" com um complemento ("a Gioconda") e um predicativo (caracterizador e/ou qualificador) desse complemento ("por testemunha"). Quer outro exemplo? Lá vai, agora de uma canção popular: "Tem os olhos cheios de esperança, de uma cor que mais ninguém possui" (da e/terna "Olha", composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos). A coisa é muito simples, caro leitor: basta não inventar. É isso.
O ensino gramatical é, na prática, a única solução que a escola tem dado à necessidade de ensinar a norma culta, num contexto linguístico em que a norma culta se afasta do uso corrente. (ILARI, 2007. p. 235)
São vinte e tantos anos em sala de aula. São vinte e tantos anos dando aulas de Língua Portuguesa e de Literatura. E são vinte e tantos anos ouvindo as mesmas observações de alunos, pais e, o pior de tudo, de coordenações pedagógicas: nós queremos aula; a professora não está preparando para o vestibular; não há conteúdo no caderno; tu és criativa, mas os alunos não veem relação de alguns projetos que fazes com o ensino da gramática. Esse assédio não é exclusividade de um ou de outro dos professores de LP que travam uma luta diária para fazer de suas aulas laboratórios de discussão sobre e com a língua, e alguns, ao longo do tempo, preferem voltar às “boas e velhas aulas de gramática”, que não lhes dão problemas e agradam a todos.
Felizmente, nem todos desistem da batalha, e os que persistem acabam por encontrar ressonância em alguns bons alunos, que serão multiplicadores, mais adiante, do prazer em desvendar os mistérios da língua e da literatura de seu país. E são esses alunos que justificam as muitas horas dedicadas à preparação de aulas, à escolha de textos, à leitura atenta de seus textos.
No entanto, se o professor não tiver um conhecimento linguístico que embase seu trabalho, talvez não consiga levar adiante suas ideias, por mais bem intencionadas que sejam. Habilitar os alunos às diversas possibilidades da língua só será possível se ele as conhecer e dominar, o que não fará apenas com os “ensinamentos” de uma gramática escolar. É preciso que leia muito, que se especialize, que se debruce sobre os fenômenos linguísticos com os quais trabalhará em sala de aula.
Outra questão importante para o ensino de língua materna é a maneira como o professor concebe a linguagem e a língua, pois o modo como se concebe a natureza fundamental da língua altera em muito o como se estrutura o trabalho com a língua em termos de ensino. A concepção de linguagem é tão importante quanto à postura que se tem relativamente à educação. (TRAVAGLIA, 2008. p. 21)
É fundamental, portanto, que esse professor seja um leitor “com hálito de leitura”², isto é, que goste de ler e que se envolva com a obra literária. Isso significa que não se devem separar as reflexões sobre o uso da língua do trabalho com o texto literário, o que não quer dizer que este deva ser usado como pretexto para o ensino daquela. A fruição com a arte literária será, na verdade, a descoberta do manifestar-se no/ao mundo por meio das muitas possibilidades que a linguagem oferece.
(...) o professor de língua materna deveria ser, por definição, alguém que redige de maneira satisfatória (isto é, com bom controle sobre a correção, a coesão textual, a coerência, e sobre as qualidades do texto que possam ser contextualmente relevantes – concisão, clareza, expressividade...); alguém que interpreta, buscando no texto as informações que importam; alguém que sabe esclarecer a língua de um texto (não apenas a sintaxe das sentenças, e não qualquer coisa na língua de um texto, de preferência as coisas que fazem diferença); alguém que sabe e gosta de narrar, descrever e argumentar. Se nos for permitida a analogia, um professor de língua materna tem de ser como um professor de música que... toca. (ILARI, 2007)
As aulas de língua portuguesa, portanto, devem envolver os alunos nas diversas manifestações da linguagem - a das conversas diárias, a da literatura, a da Internet -, levando-os à discussão sobre a importância da adequação linguística às mais variadas situações comunicativas. Enquanto pesquisam, leem e escrevem, discutem a melhor forma de expressar suas ideias, o que demanda, então, a busca por uma linguagem mais acurada e sedutora. Estarão, dessa forma, sem que percebam, internalizando as regras do bom funcionamento da língua. A gramática passará da penosa decoreba para a prazerosa descoberta das formas eficientes de/para“dizer“ o mundo.
Não há mais condições, quando vivemos o século XXI, de nos mantermos isolados em nossas disciplinas escolares. O aluno não processa os conhecimentos adquiridos na escola porque não os percebe ligados ao mundo em que vive e, muito menos, ligados entre si. Nosso papel, então, é fazê-lo ver isso, é mostrar-lhe a funcionalidade daquilo que aprende/aprendeu na escola. Assim, quem sabe, possamos vencer a “guerra” contra os que acreditam que saber identificar os tipos de substantivo, por exemplo, capacitará nossos alunos a produzir bons textos.
REFERÊNCIAS
ILARI, Rodolfo & BASSO, Renato. O português da gente: a língua que estudamos a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2007.
TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática. 12. ed. São Paulo: Cortez, 2008.
[1]Bolsista Pró-Bolsa-PUCRS. Doutoranda em Linguística Aplicada pelo programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. Professora de LP I e II – Curso de Letras – Faculdade Porto-Alegrense. Professora de Língua Portuguesa – Diplomacia - Curso Preparatório por Disciplina (www.cursodiplomacia.com.br).
[2]Não se passa o hábito de leitura se não se tem o hálito de leitura. Bartolomeu Campos Queirós
Texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, no dia 07 de maio de 2009, à pág. C2, pelo prof. Pasquale.
Pasquale Cipro Neto
"Febre superior à (a) 39 graus"
Dizei-me vós, Senhor Deus: por que diabos se emprega mal o acento grave mesmo em casos tão óbvios e banais?
E A TAL DA GRIPE (já mudaram o nome da infeliz) não faz mal só às pessoas. Explico: na semana passada, trocamos dois dedos de prosa sobre a formação e o significado de palavras como "endemia", "epidemia", "pandemia", "pandemônio" etc. Pois alguns leitores aproveitaram a deixa para lembrar que, em painéis de alguns aeroportos, o Ministério da Saúde desferiu alguns golpes contra a língua. Um desses golpes estava nesta passagem: "...febre superior à 39 graus...". Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, Senhor Deus: por que diabos se emprega mal o acento grave (acento indicador de crase) mesmo em casos tão óbvios e banais como o da advertência em questão? Só os ingênuos não conhecem o poder de mensagens como essa, exibidas em painéis bonitos, em lugares "chiques" como aeroportos etc. O cidadão bate os olhos e fica com aquilo na memória e, quando vai escrever, tende a repetir o que viu ali. Se a escola cumprisse sempre a sua parte nesse quesito, ou seja, se mostrasse como é o fenômeno da crase, talvez se eliminasse uma das razões de as pessoas terem tanta dificuldade para perceber que "bater a porta" é bem diferente de "bater à porta" e que "viver a espera de viver ao lado teu por toda a minha vida" também é bem diferente de "viver à espera de viver ao lado teu...". Pois não custa relembrar os passos básicos. Vamos lá. O "a" com acento grave resulta de "a" + "a", em que o primeiro "a" é sempre preposição, e o segundo "a" quase sempre é artigo feminino (quase sempre, é bom enfatizar). Em "Sugeri à diretora que relesse o texto", por exemplo, ocorre a fusão da preposição "a", regida pelo verbo "sugerir" (se alguém sugere, sugere a alguém), com o artigo "a" (feminino, singular), determinante do substantivo "diretora" (feminino, singular). Um truque velho e conhecido consiste em trocar o substantivo feminino ("diretora") por um masculino: "Sugeri ao diretor...". Num passe de mágica, o "à" se transformou em "ao". Em "febre superior a 39 graus", é evidente a presença da preposição "a", regida pelo adjetivo "superior" (se algo é superior, é superior a). Para que o "a" que precede "39 graus" receba acento grave, é preciso que ocorra a fusão com outro "a". Cadê esse outro "a"? Seria um artigo (feminino, singular), determinante da expressão "39 graus", que é masculina, plural? Claro que não. Não há outro "a", caro leitor. Embora a indevida presença do acento grave no "à" de "superior à 39 graus" não mude o preço do feijão, entender por que nesse caso ele é indevido ajuda a entender outras construções em que a presença dele muda o preço do feijão, sim. Quer um bom exemplo? Lá vai: "Mantém-se a/à esquerda". Que lhe parece? Em "mantém-se a esquerda", a expressão "a esquerda" é sujeito. A construção equivale a algo como "A esquerda se mantém". Em "Mantém-se à esquerda", o sujeito certamente foi citado antes e, no caso, está representado pelo pronome "ele/ela", implícito na flexão verbal "mantém", da terceira pessoa do singular. Agora, indica-se que alguém se mantém à esquerda, ou seja, continua nessa posição (física ou política). Em termos de fluidez de leitura, tudo isso faz uma enorme diferença. A leitura vai, avança, flui, sem tropeços, sem necessidade de voltar a partes anteriores. É isso.