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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Genial como sempre

Sempre excelente, segue a coluna do prof. Pasquale publicada na Folha de S. Paulo de hoje:

PASQUALE CIPRO NETO

"Se der um tapa na bola, Neymar ia..."


A linguagem se adapta ao veículo. Quando o locutor disse a primeira parte da frase, Neymar de fato...

O CARO LEITOR CERTAMENTE já ouviu falar de correlação verbal, não? Bem, os que leem habitualmente esta coluna, os que estão às voltas com vestibulares e concursos e os que estudam a língua, entre outros, decerto já ouviram falar disso.
Para quem não sabe ou esqueceu, lá vai: a correlação verbal se ocupa do casamento entre o tempo e o modo de duas formas verbais de um mesmo período. Vamos a alguns exemplos básicos: "Se ele/a for embora, o que você fará?"; "Se ele/a fosse embora, o que você faria?".
No primeiro exemplo, há correlação entre as formas verbais "for" (do futuro do subjuntivo) e "fará" (do futuro do presente do indicativo). No segundo, a correlação se dá entre "fosse" (do pretérito imperfeito do subjuntivo) e "faria" (do futuro do pretérito do indicativo).
Se o caro leitor tiver ficado enjoado com tantos nomes de tempos e modos verbais, tome um digestivo, digo, esqueça essa montoeira de nomes e guie-se pelo senso, pelo bom senso, pela intuição, que, quase sempre, resolvem o problema.
Por que "quase sempre"? Porque há alguns casos capciosos, que às vezes nos pregam surpresas. Um desses casos é o da forma "havia", do verbo "haver". No padrão formal da língua, é desejável que se prefira essa flexão à do presente do indicativo ("há") em construções como estas: "Havia seis anos que o importante projeto estava parado nas gavetas do Congresso"; "Quando eles se conheceram, havia dois anos que o ex-ministro ocupava a pasta".
Nos exemplos do parágrafo anterior, comprova-se a pertinência do emprego da forma "havia" com a simples substituição dessa flexão por "fazia": "Fazia seis anos que o importante projeto estava parado nas..."; "Quando eles se conheceram, fazia dois anos que o ex-ministro ocupava...". As formas "havia" e "fazia" são do mesmo tempo verbal (pretérito imperfeito do indicativo).
Na língua do dia a dia, a forma "havia" é substituída por "há", que, na prática, funciona como partícula intemporal. São comuns nessa variedade da língua (e mesmo em vários registros escritos) construções como estas: "Ele trabalhava lá há seis anos" ou "Eu não via seu primo há seis anos". Esse uso é tão disseminado que, em seu "ABC da Língua Culta", Celso Luft assim escreve na entrada "há": "Forma do verbo haver, significando: 1. Faz ou fazia: Há um ano que não o vejo. Há um ano que tinha desaparecido (melhor, coordenando os tempos: Havia um ano que tinha desaparecido)".
Como se vê, Luft dá "há" como equivalente a "faz" ou "fazia", mas logo faz a observação sobre o que é "melhor". E por que será "melhor"? Talvez porque em determinados registros podem caber as duas formas, com valores distintos. Vejam-se estes exemplos: "Ela estava no hospital há um ano"; "Ela estava no hospital havia um ano". Percebeu? No primeiro exemplo, informa-se que há um ano, ou seja, um ano atrás, ela estava no hospital (não se diz quanto tempo ela passou lá); no segundo, informa-se que fazia um ano que ela estava no hospital.
E onde entra Neymar na conversa? Vamos lá. Dia desses, um locutor disse isto: "Se der um tapa na bola, Neymar ia ficar sozinho". Terá ele errado a correlação entre "der" e "ia ficar" (= "ficaria")? Não e não, caro leitor. A linguagem se adapta ao veículo. Quando o locutor disse a primeira parte da frase ("Se der um tapa na bola" -o sujeito dessa oração não era "Neymar"; era o jogador que daria o tapa na bola), Neymar de fato ficaria sozinho se o outro jogador... Mas o passe não foi dado, e o raciocínio do locutor foi tão rápido quanto o desfecho do lance, por isso a troca de "vai ficar" (= "ficará"), por "ia ficar". É isso.

inculta@uol.com.br

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Campanha pelo fim do "mesmo"!

Vamos parar com essa história de usar "o mesmo" ou "a mesma" quando não convém. Já tínhamos colocado um post aqui no blog alertando sobre esse uso incorreto (veja aqui). Hoje temos o prazer de postar a coluna do sempre excelente prof. Pasquale, publicada no jornal Folha de S. Paulo:

PASQUALE CIPRO NETO

"Eu tenho medo do Mesmo"


Diz o "Aurélio': "Parece conveniente evitar o emprego de o mesmo como equivalente do pronome ele ou o"

EM SEU ÚLTIMO VESTIBULAR, a Unicamp elaborou uma questão sobre uma conhecida frase que se lê nos elevadores ("Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar").
Confesso que nunca entendi bem a existência de uma lei que determina ao cidadão que verifique se o elevador lá está antes de nele entrar. Fica-se com a impressão de que a causa de um eventual acidente é a desobediência à lei. Francamente...
Essa "lei" e sobretudo a sua enfadonha redação (de que faz parte o chatinho emprego de "o mesmo") levaram internautas a criar a comunidade "Eu tenho medo do Mesmo" (assim mesmo, com maiúscula). Bem-humorada, a comunidade brinca com o termo "mesmo", que se transforma num ser vivo (um fantasma, um maníaco ou algo assim). Essa transformação se dá com o emprego da inicial maiúscula, que aparece também na frase "Mesmo, o maníaco dos elevadores", usada pelos integrantes dessa comunidade.
No texto original da lei, a expressão "o mesmo" recupera "o elevador". Esse uso de "o mesmo" (como elemento que substitui, recupera) não encontra abono nos dicionários recentes, como o "Houaiss" e o "Aulete" (eletrônico), mas aparece com razoável frequência na língua falada, sobretudo quando a linguagem é semiformal ou formal, e em muitos escritos -recentes ou mais antigos.
O "Dicionário Priberam da Língua Portuguesa" (de Portugal) registra sem rodeios a palavra "mesmo" com o sentido de "coisa ou pessoa que já foi mencionada anteriormente". O exemplo do dicionário é este: "Eu fiz a tarefa, mas a mesma não ficou perfeita". Numa de suas edições, o "Aurélio" diz o seguinte: "Parece conveniente evitar o emprego de o mesmo como equivalente do pronome ele ou o". E conclui: "É tão frequente esse uso, pelo menos deselegante, de o mesmo, que podemos observá-lo num mestre como Camilo Castelo Branco". Depois, o "Aurélio" dá exemplos desse uso.
Cá entre nós, esse emprego parece mesmo um tanto deselegante e até um pouco chatinho, mas... Bem, você decide, caro leitor, o que fazer com esse uso de "o/a mesmo/a".
Pois bem, voltemos à questão da Unicamp, que pedia ao candidato que explicasse "o que torna possível o jogo de palavras "Mesmo, o maníaco dos elevadores", usado pelos membros dessa comunidade". Ora, na verdade não se deveria perguntar o que torna possível o jogo de palavras, já que na frase do elevador a palavra "mesmo" é escrita com inicial minúscula. O que se deveria perguntar é que recurso a comunidade empregou para criar a brincadeira, zombaria ou algo do gênero.
Como parece claro, a brincadeira decorre do emprego, no nome da comunidade, da palavra "mesmo" com inicial maiúscula, que a transforma num substantivo próprio, que nomeia um indivíduo "fascinado" por elevadores e seus ocupantes...
Deve-se notar a presença da vírgula em "Mesmo, o maníaco dos elevadores". Essa vírgula deixa claro o papel da expressão "o maníaco dos elevadores". Não fora ela...
Na questão da Unicamp há um segundo item, que pede ao aluno que reescreva o aviso "de forma que essa leitura não seja mais possível". O enunciado não é dos mais felizes. Em vez de "de forma que essa leitura não seja mais possível", caberia "de forma que essa brincadeira não seja...". Forçando a barra, a banca achou um jeito de pedir ao candidato que reescrevesse a pífia frase do elevador sem o chato "o mesmo". As possibilidades são muitas. Uma delas é esta: "Antes de entrar no elevador, verifique se ele se encontra parado neste andar". Sim, ele (o elevador), por que não? É isso.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pontuação: a vírgula!

PASQUALE CIPRO NETO

Vírgula, para que te quero?


Só existe um governador do Estado do Rio de Janeiro; ex-governadores do Rio existem muitos e muitos


VAMOS VOLTAR A TROCAR algumas palavrinhas sobre o glorioso aposto, que, como vimos na semana passada, é palavra ou expressão que se apõe a um termo da frase para explicá-lo, defini-lo, restringi-lo etc. Como também vimos na última coluna, nem sempre o aposto vem entre vírgulas (e, é claro, nem tudo que vem entre vírgulas é aposto).
Posto isso, quero voltar ao aposto que não é separado por vírgula do termo a que se liga. Em casos como "O professor João disse..." ou "O rio Tietê nasce em...", os termos "João" e "Tietê", que nomeiam e restringem, respectivamente, "professor" e "rio", funcionam como aposto.
A ausência de vírgula nos dois casos se deve justamente ao fato de que "João" e "Tietê" restringem os termos a que se ligam (há inúmeros professores e rios no universo).
Talvez seja bom detalhar o que é restringir. Vejam-se estes exemplos: "O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o novo mínimo..."; "O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega disse que o novo mínimo...". Nos trechos vistos, "Guido Mantega" e "Maílson da Nóbrega" têm a função de aposto de "ministro da Fazenda" e de "ex-ministro da Fazenda", respectivamente, já que identificam esses termos. Por que só se empregaram as vírgulas (duas) no primeiro caso?
Vamos lá: só há um ministro da Fazenda; ex-ministros da Fazenda há muitos e muitos. Tradução: "Maílson da Nóbrega" restringe o universo de ex-ministros da Fazenda, por isso não vem separado por vírgulas. O processo é o mesmo que ocorre, por exemplo, em "O professor João disse...", "A presidente Dilma foi...", "O poeta Murilo Mendes viveu..." etc. Não custa lembrar que "João", "Dilma" e "Murilo Mendes" têm função de aposto restritivo, especificador, de "professor", "presidente" e "poeta", respectivamente.
No trecho relativo ao atual ministro da Fazenda, empregam-se as vírgulas porque "Guido Mantega" não é termo restritivo; é explicativo.
O processo é o mesmo que ocorre, por exemplo, em "Ontem, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse que..." ou "O autor da letra de "Travessia", Fernando Brant, afirmou que...". Os termos "Sérgio Cabral" e "Fernando Brant" têm função de aposto (explicativo).
Talvez a esta altura já esteja claro por que não há vírgulas em "O governador Sérgio Cabral disse...", mas há em "O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse...". Governadores há muitos; governador do Rio de Janeiro só há um.

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Texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, no dia 20 de janeiro de 2011, p. C2.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Prof. Pasquale

A língua dos títulos


Pode ter ocorrido aí o que chamamos de cruzamento (o redator usou "culpar" com a regência de "atribuir")


O LEITOR HABITUAL deste espaço sabe que volta e meia escrevo duas palavras sobre preciosidades perpetradas pelos meios de comunicação. Esse leitor sabe também que o que menos me importa quando faço esse tipo de análise é a questão do "erro" (um cochilo na concordância, por exemplo, é muito menos importante que uma combinação esdrúxula das palavras ou uma regência forçada, que faz valer a máxima do "título bom é título que cabe").
Posto isso, vamos a uma construção, desencavada do meu arquivo de pérolas. Aliás, há tempos quero comentar o caso -um título publicado neste ano, depois do terremoto no Haiti. Lá vai: "Cônsul do Haiti no Brasil diz que desgraça "é boa" e culpa terremoto à religião". Elaiá! Culpa terremoto à religião? Em que língua? Será que a intenção não era dizer "culpa a religião pelo terremoto" ou "atribui o terremoto à religião"?
Pode ter ocorrido aí o que chamamos de cruzamento (o redator empregou o verbo "culpar" com a regência de "atribuir"). O problema é que não sabemos se o redator fez mesmo esse cruzamento mental ou se, depois de redigir adequadamente (com o verbo "atribuir"), deu-se conta de que a frase não cabia e... E, como "culpa" é menor do que "atribui", "título bom é título que cabe".
Alguns redatores têm verdadeira fissura pela preposição "a". A fissura é tanta que parece que sempre dão um jeito de entortar a frase o mais que podem para que nela caiba um mágico "a", regido sabe Deus por que termo. Salvo engano, nenhum falante de português um belo dia disse algo como "Ele culpou o atraso ao trânsito" ou "O prefeito culpou o alagamento à sujeira nos bueiros". Ou será que disse?
O caro leitor notou também que, quanto ao artigo, os substantivos "terremoto" e "religião" receberam tratamento distinto? Releia o título: "...culpa terremoto à religião". Sabemos que títulos jornalísticos não começam com artigo. No meio da frase, a história muda -cada caso é um caso. Como exemplos, vejamos estes títulos da Folha (edição de terça): "EUA investigam a Universal por remessa ilegal de R$ 420 mi" (capa); "EUA investigam Universal por remessas de..." (página interna); "Justiça invalida provas obtidas pela PF contra filho de Sarney".
Como se vê, o artigo definido é figura "instável"; aparece de acordo com a conveniência etc. O fato é que, quando chega a hora de colocar (ou não) o bendito acento grave (acento indicador de crase)... Que fazer? Bem, o caso é um tanto complexo e merece um texto específico. Por enquanto, chamo a atenção para as minhas reescrituras do título: "...culpa a religião pelo terremoto"; "...atribui o terremoto à religião".
Como se vê, optei pelo artigo antes dos dois substantivos, o que se pode explicar mais ou menos pelo seguinte: o terremoto era mais do que conhecido (acabara de acontecer e tivera imensa repercussão), fato que justifica plenamente a presença do artigo; o termo "religião" é tomado em seu sentido amplo, como conceito único, universal.
Razões (ou não) à parte para o uso (ou não) do artigo definido, o fato é que não parece haver motivo forte o bastante para que o paralelismo tenha ficado de lado, ou seja, para o emprego do artigo apenas antes de um dos substantivos.
Cá entre nós, caro leitor, confesso que o emprego do artigo definido no "titulês" é mesmo um grande mistério. Depois de anos e anos de tratos diretos a essa bola, cheguei à conclusão de que... É tudo um grande mistério. Quer um conselho? Em se tratando do emprego da preposição "a" e dos artigos definidos, não leve os títulos muito a sério. É isso.


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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 26 de agosto de 2010.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Usando a língua

PASQUALE CIPRO NETO

"Consiga sucesso com as mulheres..."


Na publicidade, às vezes as palavras não significam ou não precisam significar coisa alguma


DEPOIS DE 29 dias na África do Sul, cobrindo a Copa para a Folha, e de pouco mais de duas semanas em férias, cá estou, de volta à coluna.
É claro que nesse período não me "ausentei" do mundo, muito menos da leitura de sites, jornais etc., o que significa que, lamentavelmente, não deixei de ver/ler pérolas e pérolas. Uma delas acaba de chegar ao e-mail da coluna. Aliás, é o que dá ter e-mail público: a quantidade de bobagens que chegam é inacreditável.
E qual é a tal pérola da vez? Vamos lá, começando pelo "assunto" do e-mail: "Consiga um sucesso incrível com as mulheres!!!". A fórmula? Vem logo na cabeça da mensagem: "Conquiste usando feromônios!!" (interessante notar que -sabe Deus por quê- agora há um ponto de exclamação a menos...).
E o que serão os benditos "feromônios"? Antes, vamos ao "subtítulo" da mensagem: "Imagine um produto afrodisíaco natural, para atrair mulheres". Peço ainda um minutinho, para mais um "subtítulo" (que, por aparecer no meio do texto, na linguagem jornalística chamamos de "intertítulo"): "Aumente o seu poder de sedução com as mulheres!" (agora entendi por que no segundo subtítulo há um ponto de exclamação a menos; só não entendi por que não há o sinal em "Imagine um produto...").
O prezado leitor notou a sequência de verbos ("consiga", "conquiste", "imagine", "aumente") conjugados no modo imperativo afirmativo? Bem, como se diz nas receitas, separe. Vamos falar disso já, já.
Já sei, já sei. Você quer saber o que vem a ser o tal do feromônio, não? Recorramos ao "Houaiss": "Substância biologicamente muito ativa, secretada especialmente por insetos e mamíferos, com funções de atração sexual, demarcação de trilhas ou comunicação entre indivíduos". O dicionário "Houaiss" diz ainda que há a forma variante "ferormônio".
A esta altura, já me sinto (como sempre) um belo ignorante: se o tal feromônio é secretado por insetos e mamíferos, e nós somos mamíferos... Ou os mamíferos que secretam essa substância são só os "irracionais"? Uma passagem da mensagem talvez explique (ou complique) de vez: "Os feromônios! Fragrância: toque de raízes selvagens". Que tal?
O fato é que, na linguagem publicitária, muitas vezes as palavras não significam o que significam ou não precisam significar coisa alguma. Quando o termo é técnico ou muito específico (caso de "feromônio"), então, o prato está feito.
Mas deixemos isso para lá e fixemo-nos agora na sequência de verbos no modo imperativo, que, como se sabe, é o modo da ordem, do pedido, do apelo, da súplica. A primeira dessas flexões imperativas é "consiga" ("Consiga um sucesso incrível com as mulheres!!!"). Não lhe parece no mínimo inquietante a ideia de alguém mandar alguém conseguir alguma coisa, sobretudo quando essa coisa é o sucesso com as mulheres, que virá com o simples uso dos tais feromônios, ou seja, que não exigirá esforço algum além do uso das tais substâncias ativas?
Pois é, caro leitor, o truque é velho. Consiste em convencer o possível cliente a comprar determinado produto, dando-lhe "ordens" que não parecem ordens ou missões que serão facilmente cumpridas, desde que se usem os tais miraculosos produtos. A frase final do texto não deixa dúvida: "As mulheres notarão sua presença onde quer que esteja".
Não foi por acaso que o redator empregou "notarão" (e não "vão notar"), assim como não foi por acaso que, na primorosa "Um Índio", Caetano Veloso usou "descerá", "virá", "pousará" etc. (em vez de "vai descer", "vai vir", "vai pousar"): a forma sintética do futuro do presente do indicativo é muito mais contundente do que a composta. A língua e seus poderes... É isso.

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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 05 de agosto de 2010.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Silepse

PASQUALE CIPRO NETO

"Vossa Excelência parece contrariado/a"


Em "Vossa Excelência parece contrariado", o adjetivo "contrariado" concorda com o sexo do ser representado
NA SEMANA passada, tratei de uma questão do último vestibular da PUC de São Paulo, em que se abordava o emprego da expressão "a gente" na letra de uma canção popular. No fim do texto, citei estes versos de Drummond: "Eu não devia te dizer / mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo".
Vimos que em "botam a gente comovido" ocorre uma concordância diferente da que pregam as regras gramaticais. O adjetivo "comovido", masculino, não concorda com o substantivo "gente", feminino, mas com o seu significado ou valor. Esse "a gente" está aí por "eu". Em casos como esse, a expressão "a gente" é definida como "a(s) pessoa(s) que fala(m)"; "eu", "nós" ("Aulete", versão eletrônica) ou como "a pessoa que fala em nome de si própria e de outro(s)"; "nós" ("Houaiss"). É bom lembrar que o nome desse fenômeno linguístico é "silepse" (concordância com a ideia, com o sentido mais próximo, e não com a forma).
Notou o que fez o "Houaiss" na definição de "a gente"? Vamos lá: que dizer da sequência "pessoa", "própria" e "outro(s)"? A forma "outros" não carece de explicação, já que pode muito bem ter o sentido de "as outras pessoas", mas e a forma "outro" ("a pessoa que fala em nome de si própria e de outro")? Não seria "outra"? Ou será esse outro caso de silepse? E, se for, a que termo se referirá a palavra masculina "outro"?
Que tal vermos os tipos de silepse? Como as concordâncias (verbal/nominal) podem envolver o gênero (masculino/feminino), o número (singular/plural) e a pessoa (primeira/segunda/terceira), são essas as classificações dos diversos tipos de silepse. Quando se diz, por exemplo, que "São Paulo é insuportavelmente suja e esburacada", com quem concordam os adjetivos "suja" e "esburacada", femininos? Com "São Paulo", que, ao pé da letra, é expressão masculina?
Certamente não. Esses adjetivos concordam com o sentido de "São Paulo" (a cidade de São Paulo).
O caso que acabamos de ver é de silepse de gênero, já que o que se trocou foi justamente o gênero (em vez do masculino, da expressão "São Paulo", empregou-se o feminino, em acordo com o sentido).
É nesse caso que se enquadra o título desta coluna. Em "Vossa Excelência parece contrariado", o adjetivo masculino "contrariado" não concorda com a forma feminina da expressão de tratamento "Vossa Excelência", mas com o sexo do ser representado (um deputado, senador, prefeito, governador, presidente etc.). Se a frase fosse dirigida a uma mulher, seria empregada a forma feminina ("contrariada").
Vejamos outro caso: "Os professores temos plena consciência de que...". Essa frase só pode ser dita por um... Por um professor, é claro.
Quando atuam como sujeito, formas como "os professores" costumam levar o verbo para a terceira pessoa do plural ("Os professores têm plena consciência de que...").
No exemplo visto, quebrou-se a "normalidade" com o emprego de "temos", da primeira do plural, que não concorda com "os professores", mas com "nós", forma presente no pensamento de quem emitiu a frase (obrigatoriamente um professor). A silepse agora é de pessoa, já que se trocou a terceira do plural ("eles") pela primeira ("nós").
Por fim, veja este exemplo: "Pediu à turma que não fizessem barulho". A quem se refere a forma verbal "fizessem"? Ao substantivo coletivo "turma", cuja forma é do singular? Não. A forma "fizessem" concorda com o significado da palavra "turma". O que há aí, portanto, é um caso de silepse de número, já que se trocou o singular (de "turma") pelo plural (de "alunos", "colegas", "companheiros"). É isso.

inculta@uol.com.br

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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 22 de abril de 2010.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

De novo ele! Genial como sempre.

sPASQUALE CIPRO NETO

"É consensual que (as) poucas leis brasileiras..."


Tenho a impressão de que muita gente teve dificuldade para perceber que as duas afirmações são equivalentes

NA COLUNA DA SEMANA passada, ao analisar a(s) bendita(s) frase(s) que encerra(m) as peças publicitárias de medicamentos ("A/Ao/Se persistirem os sintomas, o médico..."), afirmei, em tom meio jocoso, que "não entendo bem por que "o médico" e não "um médico", mas isso é outra história".
Na segunda-feira, a professora Priscila Figueiredo, que trabalha comigo na TV Cultura, disse-me que lera a coluna e, também em tom meio jocoso, afirmou que o uso do artigo "o" em "o médico deverá ser consultado" lhe dá a impressão de volta aos velhos tempos, como se o médico fosse uma espécie de pajé, o único da tribo. Eu complementei o que ela disse com a informação de que em muitos países existe a figura do médico (do serviço público) de família, o que torna razoável o uso do artigo definido. Por aqui, parece melhor optar mesmo pelo indefinido ("um médico deverá ser...").
Pois bem. Revirando a memória, lembrei-me de uma questão do último vestibular do Ibmec-SP, que, de forma muito interessante, aborda a questão do emprego do artigo definido. O enunciado da questão era este: "Compare estes períodos: I - É consensual que as poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam. II - É consensual que poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam".
Vou poupar o leitor do desfile das cinco opções (tratava-se de um teste de múltipla escolha). Vou direto ao ponto: o prezado leitor já sabe que diferença existe entre as frases? Já sabe onde está o xis do problema?
Vamos lá. Na primeira frase (em que há o artigo definido "as" antes de "poucas leis brasileiras"), afirma-se que no Brasil há poucas leis sobre crimes ambientais e que nenhuma funciona. Na segunda, afirma-se mais ou menos o contrário, ou seja, que, no geral, as leis brasileiras sobre crimes ambientais funcionam -só algumas (poucas) não funcionam.
No teste do Ibmec, a resposta correta era esta: "A presença do artigo definido, na frase I, permite inferir que a afirmação contém uma crítica à eficiência das leis ambientais".
Tenho a impressão de que muita gente teve dificuldade para perceber que as duas afirmações são equivalentes, ou seja, que o texto da resposta é uma "tradução" da frase I. Um dos empecilhos pode ser o vocabulário (o verbo "inferir", por exemplo, que significa "deduzir", "concluir").
Outro empecilho pode estar na própria capacidade do candidato de entender que, se na frase I se diz que "as poucas leis sobre crimes ambientais não funcionam", diz-se que as leis são poucas e não funcionam. Mutatis mutandis, os casos vistos hoje lembram outro, clássico, já abordado aqui algumas vezes -o das orações introduzidas pelo pronome relativo "que". Para refrescar a memória, leia estas duas frases: "A partir da semana que vem, os brasileiros que gostam de literatura poderão frequentar a mais nova sala de leitura do país, localizada..."; "A partir da semana que vem, os brasileiros, que gostam de literatura, poderão frequentar a...".
Pois bem. Qual é mesmo a diferença entre as duas construções? Se o caro leitor leu com atenção, percebeu que, na segunda construção, a oração "que gostam de literatura" vem entre vírgulas, certo?
Como o espaço está no fim, vou direto ao ponto: as vírgulas são usadas quando se quer generalizar a afirmação. Na segunda, portanto, afirma-se que, em geral, os brasileiros gostam de literatura.
Na primeira construção, sem as vírgulas, restringe-se o universo dos seres mencionados (os brasileiros, no caso). Moral da história: sem as vírgulas, afirma-se que essa parcela dos brasileiros (a parcela que gosta de literatura) poderá frequentar a mais nova sala... É isso.

inculta@uol.com.br

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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 08 de abril de 2010.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Frases e significados

Coluna de Pasquale Cipro Neto, publicada no jornal Folha de S. Paulo de 02 de julho de 2009, p. C2.

"Museu tem acervo roubado"

Se perguntarmos a um grego ou a um turco o que eles acham do acervo de certos museus europeus...


"DAR MURROS em ponta de faca." É essa a sensação que se experimenta quando se leem títulos como o desta coluna. A preciosidade, é bom que se diga, é real -e não é desta Folha.
O leitor habitual deste espaço sabe muito bem que volta e meia comento pérolas da casa e as identifico; quando a obra-prima é de lavra alheia, silencio (como convém). Posto isso, permita-me perguntar-lhe, caro leitor: que se entende do título em questão? Tomada na sua essência, a frase informa que o que o museu X expõe é roubado. Tá dominado, tá tudo dominado!
Essa bobagem resulta de um chatíssimo modismo: o uso de "ter" como verdadeiro cola-tudo, como se vê, por exemplo, em "Brasil tem proposta aprovada na ONU", que pode muito bem virar "Proposta do Brasil é aprovada na/pela ONU".
Dia desses, ouvi esta pérola: "A mulher teve o marido entre os 12 feridos". Não, caro leitor, você não está lendo a coluna do querido Zé Simão, mas, como diria o brilhante articulista, a pobre mulher pariu o marido em pleno campo de batalha... E ao lado de 12 bravos combatentes alvejados! Rarará!
Custa muito dizer pura e simplesmente que o marido de Fulana é um dos 12 feridos ou que um dos 12 feridos é o marido de Fulana? Parece que custa. Se não custasse, não se leriam ou ouviriam essas e outras pérolas, como: "A empresa teve um de seus ônibus destruído". Basta dizer que um dos ônibus da empresa foi destruído.
Mas voltemos ao museu e a seu "suspeitíssimo" acervo, fruto de furtos, roubos, falcatruas etc. Como me lembra o nosso querido Hélio Schwartsman, se perguntarmos a um grego ou a um turco o que eles acham do monumental acervo de certos museus europeus...
A solução? Pois é aí que a coisa começa a enroscar. A melhor redação talvez esbarrasse no velho problema do espaço ("Título bom é título que cabe", lembra?). Algo como "Acervo de museu é roubado" mantém a ruindade. Parece que as saídas são um tanto óbvias: "Acervo de museu é levado/furtado por ladrões", "Ladrões roubam/ furtam acervo de museu" etc.
Se alguém já está pensando que o problema está no emprego do verbo "ter" e que a solução é pura e simplesmente não empregá-lo, vou logo dizendo que a coisa não é bem assim. O problema está em determinados usos, que criam mais confusão do que boas soluções. Para não dizer que não falei das flores, sugerirei um exemplo de bom uso do verbo "ter".
Recorrerei ao grande poeta mineiro Murilo Mendes e à sua antológica e genial "Canção do Exílio": "A gente não pode dormir / com os oradores e os pernilongos / Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda". Como o caro leitor pôde ver, Murilo empregou o verbo "ter" com um complemento ("a Gioconda") e um predicativo (caracterizador e/ou qualificador) desse complemento ("por testemunha").
Quer outro exemplo? Lá vai, agora de uma canção popular: "Tem os olhos cheios de esperança, de uma cor que mais ninguém possui" (da e/terna "Olha", composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos). A coisa é muito simples, caro leitor: basta não inventar. É isso.

inculta@uol.com.br

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Crase

Texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, no dia 07 de maio de 2009, à pág. C2, pelo prof. Pasquale.

Pasquale Cipro Neto

"Febre superior à (a) 39 graus"

Dizei-me vós, Senhor Deus: por que diabos se emprega mal o acento grave mesmo em casos tão óbvios e banais?

E A TAL DA GRIPE (já mudaram o nome da infeliz) não faz mal só às pessoas. Explico: na semana passada, trocamos dois dedos de prosa sobre a formação e o significado de palavras como "endemia", "epidemia", "pandemia", "pandemônio" etc. Pois alguns leitores aproveitaram a deixa para lembrar que, em painéis de alguns aeroportos, o Ministério da Saúde desferiu alguns golpes contra a língua.
Um desses golpes estava nesta passagem: "...febre superior à 39 graus...". Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, Senhor Deus: por que diabos se emprega mal o acento grave (acento indicador de crase) mesmo em casos tão óbvios e banais como o da advertência em questão?
Só os ingênuos não conhecem o poder de mensagens como essa, exibidas em painéis bonitos, em lugares "chiques" como aeroportos etc. O cidadão bate os olhos e fica com aquilo na memória e, quando vai escrever, tende a repetir o que viu ali.
Se a escola cumprisse sempre a sua parte nesse quesito, ou seja, se mostrasse como é o fenômeno da crase, talvez se eliminasse uma das razões de as pessoas terem tanta dificuldade para perceber que "bater a porta" é bem diferente de "bater à porta" e que "viver a espera de viver ao lado teu por toda a minha vida" também é bem diferente de "viver à espera de viver ao lado teu...".
Pois não custa relembrar os passos básicos. Vamos lá. O "a" com acento grave resulta de "a" + "a", em que o primeiro "a" é sempre preposição, e o segundo "a" quase sempre é artigo feminino (quase sempre, é bom enfatizar). Em "Sugeri à diretora que relesse o texto", por exemplo, ocorre a fusão da preposição "a", regida pelo verbo "sugerir" (se alguém sugere, sugere a alguém), com o artigo "a" (feminino, singular), determinante do substantivo "diretora" (feminino, singular). Um truque velho e conhecido consiste em trocar o substantivo feminino ("diretora") por um masculino: "Sugeri ao diretor...". Num passe de mágica, o "à" se transformou em "ao".
Em "febre superior a 39 graus", é evidente a presença da preposição "a", regida pelo adjetivo "superior" (se algo é superior, é superior a). Para que o "a" que precede "39 graus" receba acento grave, é preciso que ocorra a fusão com outro "a". Cadê esse outro "a"? Seria um artigo (feminino, singular), determinante da expressão "39 graus", que é masculina, plural? Claro que não. Não há outro "a", caro leitor.
Embora a indevida presença do acento grave no "à" de "superior à 39 graus" não mude o preço do feijão, entender por que nesse caso ele é indevido ajuda a entender outras construções em que a presença dele muda o preço do feijão, sim.
Quer um bom exemplo? Lá vai: "Mantém-se a/à esquerda". Que lhe parece? Em "mantém-se a esquerda", a expressão "a esquerda" é sujeito. A construção equivale a algo como "A esquerda se mantém". Em "Mantém-se à esquerda", o sujeito certamente foi citado antes e, no caso, está representado pelo pronome "ele/ela", implícito na flexão verbal "mantém", da terceira pessoa do singular. Agora, indica-se que alguém se mantém à esquerda, ou seja, continua nessa posição (física ou política).
Em termos de fluidez de leitura, tudo isso faz uma enorme diferença. A leitura vai, avança, flui, sem tropeços, sem necessidade de voltar a partes anteriores. É isso.

inculta@uol.com.br

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Os hífens da Reforma

Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Pasquale Cipro Neto

Por falar em "mais-que-perfeito"...

Só nos cabe engolir que a regra é que não há regra clara; é preciso decorar as exceções e ter o "Volp" à mão

NA SEMANA PASSADA, analisei uma questão da última prova da Unifesp, que exigia do candidato o conhecimento do(s) valor(es) de alguns tempos verbais. O protagonista do teste era o pretérito mais-que-perfeito do indicativo.
Pois bem. Levados pela verdadeira salada "hifênica" que foi servida aos brasileiros pela reforma ortográfica (sim, reforma, e não acordo ortográfico, já que, por enquanto, isso tudo não passa mesmo de uma reforma ortográfica -exclusivamente brasileira, visto que os demais países lusófonos ainda não a adotaram), vários leitores escreveram para perguntar sobre os hifens (ou hífenes) de "mais-que-perfeito". "O hífen não caiu em locuções desse tipo?".
É melhor ir logo ao ponto, digo, ao texto oficial do acordo, digo, reforma, que, no sexto item de sua base XV ("Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares"), perpetra esta claríssima resolução: "Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo (sic) algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa). Sirvam, pois, de exemplo de emprego sem hífen as seguintes locuções...".
Vou poupar o prezado leitor dos tais exemplos, quase todos mais do que inúteis, já que quase todas as expressões listadas jamais foram escritas com hífen. Está bem, vou dar umazinha só: "apesar de". Alguém já pensou em escrever isso com hífen? Então para que pôr isso no texto oficial? E qual foi o critério para estabelecer que "pé de moleque" (doce), "mula sem cabeça" (figura do folclore brasileiro), "água de coco" e "água de cheiro" (que se escreviam com hífen) não são casos "consagrados pelo uso"?
Outra falta de nexo no texto oficial se vê no primeiro item da mesma base XV. Nele se fala do hífen em palavras compostas. A coisa começa bem (mantém-se o hífen em compostos como "segunda-feira", "arco-íris", "decreto-lei", "luso-brasileiro", "guarda-chuva", "sul-africano", "mato-grossense" etc.), mas, quando se chega à observação que encerra esse item, encontra-se esta ressalva: "Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista etc.". O leitor leu bem as expressões "certos compostos" e "em certa medida"? E o mais do que abominável "etc."? Que significa isso?
Quando se lê essa ressalva (redigida com precisão inigualável), o mínimo que se pode fazer é usar o velho método da analogia: se ("em certa medida") se perdeu a noção de composição em "paraquedas" (que se escrevia "pára-quedas"), também se perdeu essa noção em...
Pode parar, caro leitor. Em "para-choque", "para-raios" e "para-brisa", mantém-se o hífen. Pode? Não pode, mas... Mas só nos cabe engolir que a regra é que não há regra clara, que é preciso decorar as exceções e, sobretudo, que é mais do que preciso ter à mão o recém-lançado "Vocabulário Ortográfico", para verificar que destino se deu a este ou àquele caso. É isso.

inculta@uol.com.br

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A ordem dos fatores

"Manifesto contra a nudez de Pedro Cardoso"

Pela enésima vez, caro leitor, lembro que as palavras devem ser dispostas nas frases com critério, com nexo.

Pasquale Cipro Neto

O GRANDE AUGUSTO DE CAMPOS dedica seu belíssimo livro "Balanço da Bossa e Outras Bossas" (de 1974) ao avô, Américo de Campos, "que me ensinou a gostar de poesia e a passar a vida inteira lutando por causa perdida".
Muitas vezes, sinto-me exatamente como Augusto. Quando vejo, por exemplo, certos títulos jornalísticos, acho que perco o meu latim (é bom saber que a expressão "gastar/ perder o seu latim" significa "trabalhar ou esforçar-se inutilmente").
Veja este título, posto na primeira página de um site, na semana passada: "Selton Mello responde ao manifesto contra a nudez de Pedro Cardoso". Eu estava fora da pátria amada, acompanhando a distância o que se sucedia por aqui. Não sabia que Cardoso se manifestara contra a nudez gratuita no cinema e no teatro.
Minha primeira reação foi supor que Cardoso ficara nu e que isso causara escândalos, revoltas, manifestos etc., e que, solidário, Selton Mello saíra em defesa de Cardoso.
Resolvi deixar o título de lado e ler a notícia toda. Nada de Cardoso nu, nada de manifesto contra a nudez dele, nada de apoio de Selton a Cardoso. O problema estava no (horroroso) título que eu lera, cujas peças estavam fora de lugar. O que se queria informar exigia que as palavras fossem dispostas nesta ordem: "Selton Mello responde ao manifesto de Pedro Cardoso contra a nudez".
Pela enésima vez, caro leitor, lembro que as palavras devem ser dispostas nas frases com critério, com nexo. Muitas vezes, a ordem dos fatores altera -e muito!- o produto. A parte dos estudos lingüísticos que se ocupa das relações entre as palavras e as orações é a regência.
Basta que duas palavras se relacionem para que se estabeleça um mecanismo de regência. Em "mulher bonita", por exemplo, o termo regente é "mulher"; o regido é "bonita". E por quê? Porque nesse par o substantivo (que não por acaso se chama substantivo -é a substância) é feminino, o que exige que o adjetivo ("bonita") assuma a forma feminina, em sintonia com "mulher".
Pois no título relativo à nudez de Cardoso, digo, ao manifesto de Cardoso contra a nudez gratuita no teatro e no cinema, a expressão "de Pedro Cardoso" é regida pelo substantivo "manifesto" e não pelo também substantivo "nudez". O nome "manifesto" rege ainda a expressão "contra a nudez". É fundamental que a ordem dos termos seja tal que impeça interpretação diferente da que se pretende, diferente daquela que espelha com veracidade os fatos.
Mas a coisa não parou no embate entre Mello e Cardoso. Veja esta outra pérola, perpetrada por um jornal (em letras graúdas): "Mãe de Eloá diz que perdoa Lindemberg durante velório". O perdão se encerra quando acaba o velório? E depois? Ou será que a mãe daria o perdão durante o velório? Mas Lindemberg estava preso, isto é, não poderia ir ao velório.
Há um mês, a pérola da vez foi esta: "Democratas e republicanos atribuem impasse em plano de socorro a McCain". Que significa isso? Que há um impasse num plano que visa a socorrer o pobre McCain? É o que parece. A expressão "a McCain" não é regida pelo substantivo "socorro", mas pela forma verbal "atribuem". A ordem que melhor traduziria o sentido pretendido é esta: "Democratas e republicanos atribuem a McCain impasse em plano de socorro".
Mais uma vez, pergunto: é difícil? Não creio. Basta ler, reler, ler -e com muita atenção. Do contrário... É isso.

inculta@uol.com.br

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Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 23 de outubro de 2008.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Frases ambíguas

"Vidas em implantação" - Pasquale Cipro Neto

A CONCESSIONÁRIA que administra a rodovia Presidente Dutra anuncia que brevemente (ufa!!!) haverá radares ao longo da autopista. Foi a querida Teresa Garcia, editora-chefe do "Jornal Hoje", da TV Globo, que me deu a notícia, com a fiel transcrição desta preciosidade, presente nos cartazes afixados pela NovaDutra em vários pontos da estrada: "Radares que salvam vidas em implantação".
Brinquei com Teresa, dizendo-lhe que a frase poderia decorrer de um ato falho da concessionária, talvez sabedora de que, quando se entra nessa (e em quase todas as "rodovias" brasileiras), a vida passa a estar por um fio. Seja pela precariedade das "estradas", seja pelo comportamento dos nossos irresponsáveis motoristas, estar numa "autopista" brasuca é ter a vida em constante "implantação" -é pura roleta-russa.
A esta altura o leitor certamente já captou o xis do problema: estamos de volta à "alegre fábrica" de frases estruturalmente ambíguas ou de duplo sentido explícito mesmo, sem contar aquelas que não transmitem o sentido desejado. Uma dessas é ouvida a bordo dos nossos aviões de carreira: "Desligue o seu celular mantendo-o desligado durante todo o vôo". De acordo com a frase, o modo de desligar o celular é mantê-lo desligado durante o vôo (!!!???). Que tal a velha conjunção "e"? Vejamos: "Desligue o seu celular e mantenha-o assim/desse modo durante o vôo". Às vezes, uma simples inversão resolve o problema. Em "Ele atropelou um cavalo correndo pela avenida", por exemplo, há uma ambigüidade que pode ser desfeita com a inversão da ordem das orações: "Correndo pela avenida, ele atropelou um cavalo". Em outros casos, embora se limite à estrutura, a ambigüidade deve ser eliminada. Uma frase como "Ele encontrou o gato varrendo a rua" deve ser alterada para "Varrendo a rua, ele encontrou o gato".
E a coisa não pára por aí. Pense nesta frase: "Ela encontrou os filhos vendo televisão". Quem estava vendo televisão? Ela ou os filhos? Se era ela que estava vendo televisão, pode-se entender que os filhos estavam desaparecidos e foram vistos por ela num programa de TV.
Antes que me esqueça, voltemos à frase da NovaDutra. Parece razoável pensar em algo como "Estamos implantando ("instalando" parece melhor, não?) radares, que salvam vidas" (ou "para salvar vidas"). Para ficar mais perto da frase original, uma hipótese viável seria "Radares em instalação, para salvar vidas" (ou, com mais ênfase, "Para salvar vidas, estamos instalando radares").
Há algum tempo, um site publicou esta pérola: "Ex-cirurgião plástico afirma ter sido perseguido por mulher esquartejada...". Nem no mais sombrio dos filmes de terror! O problema está no duplo valor de "esquartejada" (adjetivo e particípio).
Seria mais seguro algo como "Ex-cirurgião afirma que foi/era perseguido por mulher que ele esquartejou".
Se você pensou em algo como "Ex-cirurgião afirma que esquartejou mulher porque ela o perseguia", é bom parar para pensar. Com o emprego do "porque", cria-se uma relação de causa e conseqüência que talvez não corresponda aos fatos ou ao cerne da afirmação do ex-cirurgião.
A conclusão é a de sempre: reler não faz mal a ninguém. Criar certos dispositivos de "defesa" também é bom. Um dos dispositivos pode ser, por exemplo, o disparo automático do alarme em caso de uso de gerúndio, de particípio, do relativo "que", do possessivo "seu"... É isso.

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Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 18 de setembro de 2008.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Restrição e explicação

PASQUALE CIPRO NETO 

Quantas são as feias da festa?


Quando se trata de restrição ou generalização por meio de uma oração iniciada pelo relativo "que", a coisa...

O MAIS RECENTE vestibular da FGV (Fundação Getulio Vargas) apresentou uma questão relativa ao emprego da vírgula antes do pronome relativo "que". A banca pediu aos candidatos que comparassem as seguintes construções, "observando sua pontuação":
"Nesta festa, só beijarei as meninas, que são feias"; "Nesta festa, só beijarei as meninas que são feias".
Em seguida, a banca pedia aos candidatos que assinalassem "a alternativa correta quanto ao sentido dessas frases". Eis as alternativas:
"a) A primeira afirma que todas as meninas da festa são feias -e serão beijadas; b) A primeira afirma que somente as meninas feias serão beijadas; as bonitas não; c) A segunda afirma que todas as meninas da festa são feias -e serão beijadas; d) A segunda afirma que somente as meninas bonitas serão beijadas; as feias não; e) As duas frases afirmam que as meninas bonitas serão beijadas".
A esta altura, o leitor talvez esteja atordoado com tantas exclusões e generalizações (todas serão beijadas; só as bonitas, só as feias...). Peço-lhe um pouco de calma e paciência e, por enquanto, um certo "desprezo" pela seqüência de opções.
Apesar de reproduzirem algo um tanto inverossímil (é pouco provável que alguém diga ou escreva a segunda frase; parece mais natural imaginar que se diga "Só beijarei as meninas feias" ou "Só beijarei as feias"), o fato é que há por trás de tudo isso uma velha conversa: "Quando se restringe, não se virgula; quando se generaliza, virgula-se". Grosso modo, é assim mesmo. Quem lê uma frase como "Trabalharei apenas com as meninas rebeldes", por exemplo, provavelmente entenda de imediato que: a) em determinado grupo algumas meninas são rebeldes e outras são "conformistas"; b) trabalharei só com as rebeldes.
No caso visto, o adjetivo "rebelde" tem papel restritivo, por isso não é separado por vírgula do substantivo que qualifica. Seguindo a mesma linha que norteou a banca da FGV, compare agora estas frases: "Os deputados extenuados deixaram o plenário"; "Os deputados, extenuados, deixaram o plenário".
E então? Que percebe o leitor?
Que foi realizada uma extenuante sessão do Parlamento -durou horas e horas a tal sessão. No primeiro caso (sem as vírgulas), informa-se que deixaram o plenário os deputados extenuados; os que ainda tinham energia permaneceram. No segundo caso (com "extenuados" entre vírgulas), informa-se que todos os deputados de que se falava deixaram o plenário extenuados.
Quando se trata de restrição ou generalização por meio de uma oração iniciada pelo relativo "que", a coisa funciona(ria) do mesmo modo, mas... Mas o fato é que, talvez por exigir conhecimento um tanto específico, o emprego da vírgula antes da oração explicativa (aquela que generaliza) nem sempre é observado. O resultado disso é que muitas vezes se lê algo como "Os jogadores que desconhecem as regras receberão instruções de árbitros da Fifa" no lugar de "Os jogadores, que desconhecem as regras, receberão instruções de...".
A primeira frase informa que só os jogadores que desconhecem as regras receberão as instruções; a segunda informa que todos os jogadores de que se fala desconhecem as regras e receberão as instruções. Sim, já sei: falta a resposta do teste da FGV. Acho que você já sabe, não? Vamos lá: é "a", certo? É isso.

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Publicado na Folha de São Paulo em 04 de setembro de 2008, p. C2

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Inculta e bela

Da Folha de São Paulo de hoje:

PASQUALE CIPRO NETO

"Lugar qualquer (em) que não exista..."

No dia-a-dia, quem é que não diz algo como "Os países que eu fui", "A rua que eu moro" ou "A roupa que eu estava"?

EDSON TRINDADE COMPÔS "Gostava Tanto de Você", um dos tantos sucessos de Tim Maia. Diz a letra: "Pensei até em me mudar / Lugar qualquer que não exista / O pensamento em você / E eu gostava tanto de você...".
Nas questões discursivas dos mais importantes vestibulares e concursos públicos do país, é comum a exigência da noção de que determinados procedimentos podem ser comuns em certos registros lingüísticos e inexistentes em outros. Trocando em miúdos, é comum, por exemplo, que se peça ao candidato que aponte as marcas típicas da linguagem coloquial presentes num texto. Não raro, pede-se também a troca de registro, isto é, pede-se que se reescreva o texto adaptando-o à "modalidade escrita da língua".
Nesse território, a canção de Trindade é prato cheio. O trecho "lugar qualquer que não exista o pensamento em você" apresenta um procedimento típico da linguagem oral -o emprego do pronome relativo "que" sem a preposição "em" ("em que não exista"). No dia-a-dia, quem é que não diz algo como "A rua que eu moro", "Os países que eu fui", "A roupa que eu estava ontem" etc.?
Se a letra de Trindade fizesse parte de uma questão em que se pedisse o que já mencionei e, também, que se justificasse a alteração feita, seria necessário dizer de onde vem esse "em". Esse "em" vem do verbo "existir" (algo existe em algum lugar).
Pois não é que, quando gravou (lindamente) a canção de Trindade, a paraense Leila Pinheiro adequou a letra ao padrão formal da linguagem? Pode ouvir. Com arranjo mais lento e interpretação comovida e comovente, Leila Pinheiro diz "lugar qualquer em que não exista o pensamento em você".
Pois é aí que entra a velha história do guarda-roupa lingüístico. Tim preferiu uma roupa; Leila, outra. Ambos têm razão, desde que se observe: a) o fato de que o que é comum num determinado registro pode não ser em outro; b) a "roupa" deve ser adequada à situação.
Nesta semana, tive a honra de entrevistar, para o "Nossa Língua", o professor de língua portuguesa José Carlos de Azeredo, da Uerj.
Trocamos duas palavras sobre o pronome "cujo", que alguns arautos da pós-modernidade lingüística dão como "morto", razão pela qual querem que o dito-cujo seja banido das aulas de língua materna. Azeredo e eu discordamos radicalmente dessa sentença de morte. Pois bem. Como sabemos que nem de longe o pronome "cujo" deixou de freqüentar as variedades formais da língua, sobretudo na escrita, convém saber que construções como "Aquela moça, que o pai foi processado por desvio de dinheiro público...", que usamos no dia-a-dia, na linguagem oral, espontânea, assumem outra forma na língua culta. Nesse caso, cabe o relativo "cujo", que expressa relação de posse (a moça tem pai; o pai é dela): "Aquela moça, cujo pai foi processado por desvio de...".
E se se quisesse dizer que todos confiavam no pai da moça? Vamos pensar: a) a forma "no" resulta de "em + o"; b) se alguém confia, confia "em"; c) o pai é da moça, é dela. Pois lá vai a frase, adequada ao padrão formal: "Aquela moça, em cujo pai todos confiavam...". "Em cujo pai?" Em se tratando de linguagem formal, sim, "em cujo pai". E sem "o" depois de "cujo". É isso.

inculta@uol.com.br