Mostrando postagens com marcador Português. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Português. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Dicas, aprendizado, cultura

Recentemente o site ClicRBS passou a contar com uma página sensacional: Sua Língua, de autoria do professor Cláudio Moreno (http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/).
Moreno dispensa apresentações. É e foi professor de diversos estabelecimentos de ensino do Rio Grande do Sul, e é raro encontrar um gaúcho que ainda não tenha sido seu aluno, principalmente em cursinhos pré-vestibulares.
A página é uma maravilha pra quem se interessa pela língua portuguesa. Traz dicas, questões atuais envolvendo o uso da língua, curiosidades, lições de gramática, etimologia. Ah, e está toda atualizada segundo o Acordo Ortográfico. Enfim, é um prato cheio!
Vale a pena acessar e buscar ali, corriqueiramente, subsídios para um uso cada vez melhor de nossa língua portuguesa!
http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A ordem dos fatores

"Manifesto contra a nudez de Pedro Cardoso"

Pela enésima vez, caro leitor, lembro que as palavras devem ser dispostas nas frases com critério, com nexo.

Pasquale Cipro Neto

O GRANDE AUGUSTO DE CAMPOS dedica seu belíssimo livro "Balanço da Bossa e Outras Bossas" (de 1974) ao avô, Américo de Campos, "que me ensinou a gostar de poesia e a passar a vida inteira lutando por causa perdida".
Muitas vezes, sinto-me exatamente como Augusto. Quando vejo, por exemplo, certos títulos jornalísticos, acho que perco o meu latim (é bom saber que a expressão "gastar/ perder o seu latim" significa "trabalhar ou esforçar-se inutilmente").
Veja este título, posto na primeira página de um site, na semana passada: "Selton Mello responde ao manifesto contra a nudez de Pedro Cardoso". Eu estava fora da pátria amada, acompanhando a distância o que se sucedia por aqui. Não sabia que Cardoso se manifestara contra a nudez gratuita no cinema e no teatro.
Minha primeira reação foi supor que Cardoso ficara nu e que isso causara escândalos, revoltas, manifestos etc., e que, solidário, Selton Mello saíra em defesa de Cardoso.
Resolvi deixar o título de lado e ler a notícia toda. Nada de Cardoso nu, nada de manifesto contra a nudez dele, nada de apoio de Selton a Cardoso. O problema estava no (horroroso) título que eu lera, cujas peças estavam fora de lugar. O que se queria informar exigia que as palavras fossem dispostas nesta ordem: "Selton Mello responde ao manifesto de Pedro Cardoso contra a nudez".
Pela enésima vez, caro leitor, lembro que as palavras devem ser dispostas nas frases com critério, com nexo. Muitas vezes, a ordem dos fatores altera -e muito!- o produto. A parte dos estudos lingüísticos que se ocupa das relações entre as palavras e as orações é a regência.
Basta que duas palavras se relacionem para que se estabeleça um mecanismo de regência. Em "mulher bonita", por exemplo, o termo regente é "mulher"; o regido é "bonita". E por quê? Porque nesse par o substantivo (que não por acaso se chama substantivo -é a substância) é feminino, o que exige que o adjetivo ("bonita") assuma a forma feminina, em sintonia com "mulher".
Pois no título relativo à nudez de Cardoso, digo, ao manifesto de Cardoso contra a nudez gratuita no teatro e no cinema, a expressão "de Pedro Cardoso" é regida pelo substantivo "manifesto" e não pelo também substantivo "nudez". O nome "manifesto" rege ainda a expressão "contra a nudez". É fundamental que a ordem dos termos seja tal que impeça interpretação diferente da que se pretende, diferente daquela que espelha com veracidade os fatos.
Mas a coisa não parou no embate entre Mello e Cardoso. Veja esta outra pérola, perpetrada por um jornal (em letras graúdas): "Mãe de Eloá diz que perdoa Lindemberg durante velório". O perdão se encerra quando acaba o velório? E depois? Ou será que a mãe daria o perdão durante o velório? Mas Lindemberg estava preso, isto é, não poderia ir ao velório.
Há um mês, a pérola da vez foi esta: "Democratas e republicanos atribuem impasse em plano de socorro a McCain". Que significa isso? Que há um impasse num plano que visa a socorrer o pobre McCain? É o que parece. A expressão "a McCain" não é regida pelo substantivo "socorro", mas pela forma verbal "atribuem". A ordem que melhor traduziria o sentido pretendido é esta: "Democratas e republicanos atribuem a McCain impasse em plano de socorro".
Mais uma vez, pergunto: é difícil? Não creio. Basta ler, reler, ler -e com muita atenção. Do contrário... É isso.

inculta@uol.com.br

...........................................................................
Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 23 de outubro de 2008.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Frases ambíguas

"Vidas em implantação" - Pasquale Cipro Neto

A CONCESSIONÁRIA que administra a rodovia Presidente Dutra anuncia que brevemente (ufa!!!) haverá radares ao longo da autopista. Foi a querida Teresa Garcia, editora-chefe do "Jornal Hoje", da TV Globo, que me deu a notícia, com a fiel transcrição desta preciosidade, presente nos cartazes afixados pela NovaDutra em vários pontos da estrada: "Radares que salvam vidas em implantação".
Brinquei com Teresa, dizendo-lhe que a frase poderia decorrer de um ato falho da concessionária, talvez sabedora de que, quando se entra nessa (e em quase todas as "rodovias" brasileiras), a vida passa a estar por um fio. Seja pela precariedade das "estradas", seja pelo comportamento dos nossos irresponsáveis motoristas, estar numa "autopista" brasuca é ter a vida em constante "implantação" -é pura roleta-russa.
A esta altura o leitor certamente já captou o xis do problema: estamos de volta à "alegre fábrica" de frases estruturalmente ambíguas ou de duplo sentido explícito mesmo, sem contar aquelas que não transmitem o sentido desejado. Uma dessas é ouvida a bordo dos nossos aviões de carreira: "Desligue o seu celular mantendo-o desligado durante todo o vôo". De acordo com a frase, o modo de desligar o celular é mantê-lo desligado durante o vôo (!!!???). Que tal a velha conjunção "e"? Vejamos: "Desligue o seu celular e mantenha-o assim/desse modo durante o vôo". Às vezes, uma simples inversão resolve o problema. Em "Ele atropelou um cavalo correndo pela avenida", por exemplo, há uma ambigüidade que pode ser desfeita com a inversão da ordem das orações: "Correndo pela avenida, ele atropelou um cavalo". Em outros casos, embora se limite à estrutura, a ambigüidade deve ser eliminada. Uma frase como "Ele encontrou o gato varrendo a rua" deve ser alterada para "Varrendo a rua, ele encontrou o gato".
E a coisa não pára por aí. Pense nesta frase: "Ela encontrou os filhos vendo televisão". Quem estava vendo televisão? Ela ou os filhos? Se era ela que estava vendo televisão, pode-se entender que os filhos estavam desaparecidos e foram vistos por ela num programa de TV.
Antes que me esqueça, voltemos à frase da NovaDutra. Parece razoável pensar em algo como "Estamos implantando ("instalando" parece melhor, não?) radares, que salvam vidas" (ou "para salvar vidas"). Para ficar mais perto da frase original, uma hipótese viável seria "Radares em instalação, para salvar vidas" (ou, com mais ênfase, "Para salvar vidas, estamos instalando radares").
Há algum tempo, um site publicou esta pérola: "Ex-cirurgião plástico afirma ter sido perseguido por mulher esquartejada...". Nem no mais sombrio dos filmes de terror! O problema está no duplo valor de "esquartejada" (adjetivo e particípio).
Seria mais seguro algo como "Ex-cirurgião afirma que foi/era perseguido por mulher que ele esquartejou".
Se você pensou em algo como "Ex-cirurgião afirma que esquartejou mulher porque ela o perseguia", é bom parar para pensar. Com o emprego do "porque", cria-se uma relação de causa e conseqüência que talvez não corresponda aos fatos ou ao cerne da afirmação do ex-cirurgião.
A conclusão é a de sempre: reler não faz mal a ninguém. Criar certos dispositivos de "defesa" também é bom. Um dos dispositivos pode ser, por exemplo, o disparo automático do alarme em caso de uso de gerúndio, de particípio, do relativo "que", do possessivo "seu"... É isso.

...........................
Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 18 de setembro de 2008.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A vírgula, por Martha Medeiros

A vírgula

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) completou cem anos em abril e aproveitou para lançar uma campanha muito útil a todos os brasileiros, não só aos jornalistas. Ela defende o uso correto da vírgula.

Todas as pessoas alfabetizadas escrevem. Escrevem e-mails, bilhetes, cartões, teses, contratos, receitas, blogs e mais um sem-fim de palavras. Algumas escrevem para si mesmas, e, nesse caso, até dá para perdoar um certo relaxamento, mas a maioria escreve para ser lida por outro alguém, e quem faz isso ambiciona ser compreendido. Então. O uso correto da vírgula é crucial para alcançar esse objetivo.

No entanto, o critério para “uso correto” continua sendo, para muitos, o da respiração. As pessoas escrevem como se estivessem conversando, e se imaginam que fariam uma pausa dramática num determinado momento, pronto: decidem que ali cabe uma vírgula. Entendo. Eu, às vezes, faço a mesma coisa. Por exemplo, deu vontade de não colocar entre vírgulas o “às vezes” que acabei de escrever. Preferiria ter escrito: “Eu às vezes faço a mesma coisa”, porque eu, normalmente, falaria essa frase de forma veloz, e não pausada. Mas a vida não é tão simples. Salvo algumas licenças poéticas, é preciso seguir à risca os mandamentos da vírgula. Não me pergunte quais são, não sei, sempre escrevi por instinto, mas a ABI sabe e resolveu entrar nessa campanha dando exemplos muito práticos, que transcrevo abaixo.

“A vírgula pode ser uma pausa... ou não:

Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro:

23,4%
2,34%

Pode ser autoritária:

Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis:

Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões:

Esse, Juiz, é corrupto.
Esse Juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução:

Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião:

Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A campanha termina dizendo que a vírgula muda tudo. Dou outro exemplo. Dia desses, um moço mandou um e-mail para um programa de rádio que começava assim: “Eu como colono...” O radialista ficou injuriado, que pouca-vergonha era aquela? A vírgula que faltou poderia ter evitado o mico. “Eu, como colono, gostaria de...”. Pois é. Pequeninha, mas salva até reputações.

...................
Publicado no jornal Zero Hora, em 06 de agosto de 2008, página 3

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Inculta e bela

Da Folha de São Paulo de hoje:

PASQUALE CIPRO NETO

"Lugar qualquer (em) que não exista..."

No dia-a-dia, quem é que não diz algo como "Os países que eu fui", "A rua que eu moro" ou "A roupa que eu estava"?

EDSON TRINDADE COMPÔS "Gostava Tanto de Você", um dos tantos sucessos de Tim Maia. Diz a letra: "Pensei até em me mudar / Lugar qualquer que não exista / O pensamento em você / E eu gostava tanto de você...".
Nas questões discursivas dos mais importantes vestibulares e concursos públicos do país, é comum a exigência da noção de que determinados procedimentos podem ser comuns em certos registros lingüísticos e inexistentes em outros. Trocando em miúdos, é comum, por exemplo, que se peça ao candidato que aponte as marcas típicas da linguagem coloquial presentes num texto. Não raro, pede-se também a troca de registro, isto é, pede-se que se reescreva o texto adaptando-o à "modalidade escrita da língua".
Nesse território, a canção de Trindade é prato cheio. O trecho "lugar qualquer que não exista o pensamento em você" apresenta um procedimento típico da linguagem oral -o emprego do pronome relativo "que" sem a preposição "em" ("em que não exista"). No dia-a-dia, quem é que não diz algo como "A rua que eu moro", "Os países que eu fui", "A roupa que eu estava ontem" etc.?
Se a letra de Trindade fizesse parte de uma questão em que se pedisse o que já mencionei e, também, que se justificasse a alteração feita, seria necessário dizer de onde vem esse "em". Esse "em" vem do verbo "existir" (algo existe em algum lugar).
Pois não é que, quando gravou (lindamente) a canção de Trindade, a paraense Leila Pinheiro adequou a letra ao padrão formal da linguagem? Pode ouvir. Com arranjo mais lento e interpretação comovida e comovente, Leila Pinheiro diz "lugar qualquer em que não exista o pensamento em você".
Pois é aí que entra a velha história do guarda-roupa lingüístico. Tim preferiu uma roupa; Leila, outra. Ambos têm razão, desde que se observe: a) o fato de que o que é comum num determinado registro pode não ser em outro; b) a "roupa" deve ser adequada à situação.
Nesta semana, tive a honra de entrevistar, para o "Nossa Língua", o professor de língua portuguesa José Carlos de Azeredo, da Uerj.
Trocamos duas palavras sobre o pronome "cujo", que alguns arautos da pós-modernidade lingüística dão como "morto", razão pela qual querem que o dito-cujo seja banido das aulas de língua materna. Azeredo e eu discordamos radicalmente dessa sentença de morte. Pois bem. Como sabemos que nem de longe o pronome "cujo" deixou de freqüentar as variedades formais da língua, sobretudo na escrita, convém saber que construções como "Aquela moça, que o pai foi processado por desvio de dinheiro público...", que usamos no dia-a-dia, na linguagem oral, espontânea, assumem outra forma na língua culta. Nesse caso, cabe o relativo "cujo", que expressa relação de posse (a moça tem pai; o pai é dela): "Aquela moça, cujo pai foi processado por desvio de...".
E se se quisesse dizer que todos confiavam no pai da moça? Vamos pensar: a) a forma "no" resulta de "em + o"; b) se alguém confia, confia "em"; c) o pai é da moça, é dela. Pois lá vai a frase, adequada ao padrão formal: "Aquela moça, em cujo pai todos confiavam...". "Em cujo pai?" Em se tratando de linguagem formal, sim, "em cujo pai". E sem "o" depois de "cujo". É isso.

inculta@uol.com.br