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quinta-feira, 8 de abril de 2010

De novo ele! Genial como sempre.

sPASQUALE CIPRO NETO

"É consensual que (as) poucas leis brasileiras..."


Tenho a impressão de que muita gente teve dificuldade para perceber que as duas afirmações são equivalentes

NA COLUNA DA SEMANA passada, ao analisar a(s) bendita(s) frase(s) que encerra(m) as peças publicitárias de medicamentos ("A/Ao/Se persistirem os sintomas, o médico..."), afirmei, em tom meio jocoso, que "não entendo bem por que "o médico" e não "um médico", mas isso é outra história".
Na segunda-feira, a professora Priscila Figueiredo, que trabalha comigo na TV Cultura, disse-me que lera a coluna e, também em tom meio jocoso, afirmou que o uso do artigo "o" em "o médico deverá ser consultado" lhe dá a impressão de volta aos velhos tempos, como se o médico fosse uma espécie de pajé, o único da tribo. Eu complementei o que ela disse com a informação de que em muitos países existe a figura do médico (do serviço público) de família, o que torna razoável o uso do artigo definido. Por aqui, parece melhor optar mesmo pelo indefinido ("um médico deverá ser...").
Pois bem. Revirando a memória, lembrei-me de uma questão do último vestibular do Ibmec-SP, que, de forma muito interessante, aborda a questão do emprego do artigo definido. O enunciado da questão era este: "Compare estes períodos: I - É consensual que as poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam. II - É consensual que poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam".
Vou poupar o leitor do desfile das cinco opções (tratava-se de um teste de múltipla escolha). Vou direto ao ponto: o prezado leitor já sabe que diferença existe entre as frases? Já sabe onde está o xis do problema?
Vamos lá. Na primeira frase (em que há o artigo definido "as" antes de "poucas leis brasileiras"), afirma-se que no Brasil há poucas leis sobre crimes ambientais e que nenhuma funciona. Na segunda, afirma-se mais ou menos o contrário, ou seja, que, no geral, as leis brasileiras sobre crimes ambientais funcionam -só algumas (poucas) não funcionam.
No teste do Ibmec, a resposta correta era esta: "A presença do artigo definido, na frase I, permite inferir que a afirmação contém uma crítica à eficiência das leis ambientais".
Tenho a impressão de que muita gente teve dificuldade para perceber que as duas afirmações são equivalentes, ou seja, que o texto da resposta é uma "tradução" da frase I. Um dos empecilhos pode ser o vocabulário (o verbo "inferir", por exemplo, que significa "deduzir", "concluir").
Outro empecilho pode estar na própria capacidade do candidato de entender que, se na frase I se diz que "as poucas leis sobre crimes ambientais não funcionam", diz-se que as leis são poucas e não funcionam. Mutatis mutandis, os casos vistos hoje lembram outro, clássico, já abordado aqui algumas vezes -o das orações introduzidas pelo pronome relativo "que". Para refrescar a memória, leia estas duas frases: "A partir da semana que vem, os brasileiros que gostam de literatura poderão frequentar a mais nova sala de leitura do país, localizada..."; "A partir da semana que vem, os brasileiros, que gostam de literatura, poderão frequentar a...".
Pois bem. Qual é mesmo a diferença entre as duas construções? Se o caro leitor leu com atenção, percebeu que, na segunda construção, a oração "que gostam de literatura" vem entre vírgulas, certo?
Como o espaço está no fim, vou direto ao ponto: as vírgulas são usadas quando se quer generalizar a afirmação. Na segunda, portanto, afirma-se que, em geral, os brasileiros gostam de literatura.
Na primeira construção, sem as vírgulas, restringe-se o universo dos seres mencionados (os brasileiros, no caso). Moral da história: sem as vírgulas, afirma-se que essa parcela dos brasileiros (a parcela que gosta de literatura) poderá frequentar a mais nova sala... É isso.

inculta@uol.com.br

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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 08 de abril de 2010.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Restrição e explicação

PASQUALE CIPRO NETO 

Quantas são as feias da festa?


Quando se trata de restrição ou generalização por meio de uma oração iniciada pelo relativo "que", a coisa...

O MAIS RECENTE vestibular da FGV (Fundação Getulio Vargas) apresentou uma questão relativa ao emprego da vírgula antes do pronome relativo "que". A banca pediu aos candidatos que comparassem as seguintes construções, "observando sua pontuação":
"Nesta festa, só beijarei as meninas, que são feias"; "Nesta festa, só beijarei as meninas que são feias".
Em seguida, a banca pedia aos candidatos que assinalassem "a alternativa correta quanto ao sentido dessas frases". Eis as alternativas:
"a) A primeira afirma que todas as meninas da festa são feias -e serão beijadas; b) A primeira afirma que somente as meninas feias serão beijadas; as bonitas não; c) A segunda afirma que todas as meninas da festa são feias -e serão beijadas; d) A segunda afirma que somente as meninas bonitas serão beijadas; as feias não; e) As duas frases afirmam que as meninas bonitas serão beijadas".
A esta altura, o leitor talvez esteja atordoado com tantas exclusões e generalizações (todas serão beijadas; só as bonitas, só as feias...). Peço-lhe um pouco de calma e paciência e, por enquanto, um certo "desprezo" pela seqüência de opções.
Apesar de reproduzirem algo um tanto inverossímil (é pouco provável que alguém diga ou escreva a segunda frase; parece mais natural imaginar que se diga "Só beijarei as meninas feias" ou "Só beijarei as feias"), o fato é que há por trás de tudo isso uma velha conversa: "Quando se restringe, não se virgula; quando se generaliza, virgula-se". Grosso modo, é assim mesmo. Quem lê uma frase como "Trabalharei apenas com as meninas rebeldes", por exemplo, provavelmente entenda de imediato que: a) em determinado grupo algumas meninas são rebeldes e outras são "conformistas"; b) trabalharei só com as rebeldes.
No caso visto, o adjetivo "rebelde" tem papel restritivo, por isso não é separado por vírgula do substantivo que qualifica. Seguindo a mesma linha que norteou a banca da FGV, compare agora estas frases: "Os deputados extenuados deixaram o plenário"; "Os deputados, extenuados, deixaram o plenário".
E então? Que percebe o leitor?
Que foi realizada uma extenuante sessão do Parlamento -durou horas e horas a tal sessão. No primeiro caso (sem as vírgulas), informa-se que deixaram o plenário os deputados extenuados; os que ainda tinham energia permaneceram. No segundo caso (com "extenuados" entre vírgulas), informa-se que todos os deputados de que se falava deixaram o plenário extenuados.
Quando se trata de restrição ou generalização por meio de uma oração iniciada pelo relativo "que", a coisa funciona(ria) do mesmo modo, mas... Mas o fato é que, talvez por exigir conhecimento um tanto específico, o emprego da vírgula antes da oração explicativa (aquela que generaliza) nem sempre é observado. O resultado disso é que muitas vezes se lê algo como "Os jogadores que desconhecem as regras receberão instruções de árbitros da Fifa" no lugar de "Os jogadores, que desconhecem as regras, receberão instruções de...".
A primeira frase informa que só os jogadores que desconhecem as regras receberão as instruções; a segunda informa que todos os jogadores de que se fala desconhecem as regras e receberão as instruções. Sim, já sei: falta a resposta do teste da FGV. Acho que você já sabe, não? Vamos lá: é "a", certo? É isso.

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Publicado na Folha de São Paulo em 04 de setembro de 2008, p. C2