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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Só Vírgula


Dica preciosa para você aprender a escrever melhor: insistimos no assunto pontuação (e principalmente vírgula) porque é nesse tópico que notamos a maior quantidade de erros hoje em dia. E uma vírgula, você já viu aqui no blog, pode mudar todo o sentido da sua frase!


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pontuação

Veja o material que a 3GB Consulting preparou para você!

Faça os exercícios ao final, e se não tiver certeza das respostas, envie-nos um e-mail para duvidas@3gbconsulting.com.br. Enviaremos o gabarito para você!

Não erre mais! Saiba tudo sobre pontuação!


1. Vírgula

A vírgula é o sinal com maior variedade de uso; por isso, é aquele que oferece maiores oportunidades de erro. O principal é pensar que, a cada pausa da fala corresponde uma vírgula, o que é errado! Esquecer essa noção é o primeiro passo no sentido de utilizar a vírgula com segurança. A seguir, apresentamos as justificativas para emprego desse sinal.

a) separar os itens de uma série

Ex. Quero uma bebida gelada, uma carne ao ponto e um prato de sobremesa.

Os itens são separados todos com vírgulas, com exceção dos dois últimos, que são unidos por “E”.

Ex. O cachorro, o urso, o elefante E o pássaro não comem mais.

Atenção: há um outro padrão, no qual todos os itens são separados por vírgula. Essa construção visa demonstrar que os elementos citados não esgotam os objetos envolvidos na situação.

Ex. Era um sujeito alto, calmo, silencioso. (Ele não era só isso, tinha outras características, mas são essas as que se quis destacar).

b) separar orações ligadas por conjunções coordenativas

As orações coordenadas por E, MAS, NEM, OU ou POIS vêm separadas por vírgulas.

Ex. Não vou dar presentes no Natal, NEM espero receber coisa alguma.

Atenção: só se emprega a vírgula antes do E quando ele liga duas orações de sujeitos diferentes.

Ex. O pai saiu cedo de casa, e a mãe ficou até mais tarde.

Atenção: quando as orações forem curtas, pode-se omitir a vírgula; nunca, porém, antes do POIS.

Ex. Tentei falar mas não deixaram.

Ex. Ela está em casa, pois vi a luz acessa.

c) separar adjuntos adverbiais deslocados

Sempre que o adjunto adverbial vier for a de sua posição normal (que é no fim da frase), deve ser separado por vírgula.

Ex. Em dois anos de trabalho, jamais havia falado com meu colega.

Quando o adjunto for de pequena extensão, a vírgula pode ser omitida.

Ex. Ontem passamos o dia pescando.

d) separar aposto e vocativo

O aposto vem sempre separado por vírgula.

Ex. José, marido da secretária, é um bom sujeito.

O vocativo (usado para chamar a atenção do interlocutor) segue a mesma regra.

Ex. Não sei, Carlos, se isso dará certo.

Ex. Só tem uma Coca-Cola na geladeira, mãe.

e) separar elementos intercalados

Os elementos intercalados podem ser comentários sobre o que está sendo dito, expressões que exemplifiquem o que se diz, que estabelecem um contraste ou conjunções adversativas e conclusivas (PORÉM, TODAVIA, LOGO, PORTANTO…).

Ex. A lua, voce sabe, não é o único satélite da Terra.

Ex. Ele conhece, além disso, nossa verdadeira história.

Ex. A baleia, não José, é quem me preocupa. Quero o jantar feito pelo cozinheiro, não pelo jardineiro.

Ex. O comandante, porém, mandou parar o navio. Ninguém sabia, portanto, se a medida era acertada.

f) separar elementos não-restritivos

As orações não-restritivas referem-se a todo o conjunto ou a um elemento já apresentado e definido anteriormente. São sempre isoladas por vírgulas.

Ex. O prefeito da cidade, que não era burro, mandou prender o impostor.

g) indicar a supressão do verbo

A supressão do verbo (elipse) deve ser indicada por uma vírgula, que aparece exatamente no local de sua supressão.

Ex. Maria colhia amoras, e João, pitangas

Atenção: essa situação ocorre apenas quando os sujeitos são diferentes; se tivermos um elemento composto, a vírgula seria inadequada.

Ex. Maria colhia amoras e pitangas.

1.1 Vírgulas desnecessárias

Ao pontuar, evite os seguintes erros.

a) separar o sujeito do verbo, o verbo do complemento ou o adjetivo do substantivo

Ex. A chuva muito prolongada, causou danos consideráveis. ERRADO

Ex. Por que tinha de agüentar aquele menino, mal-educado? ERRADO

Ex. O gato do menino que mora na casa ao lado do Armazém, fugiu pra Bahia. ERRADO


b) separar elementos compostos, unidos por uma conjunção coordenativa

Ex. Perdeu o emprego, e a noiva. ERRADO

c) separar adjuntos adverbiais curtos ou em posição normal na frase (a posição normal é sempre no fim da frase)

Ex. Domingo, fui ao estágio. ERRADO

Ex. O atacante esperou a saída do goleiro e atirou a bola, no canto esquerdo. ERRADO

d) separar orações restritivas

Ex. Todo jovem, que tem a cabeça no lugar, prefere uma bicicleta mais simples. ERRADO

e) colocar vírgula antes do primeiro ou depois do último item de uma série

Ex. História, Geografia e Português, são matérias que não me agradam. ERRADO

f) colocar vírgula depois de conjunção coordenativa

Ex. Sou vegetariano desde pequeno, mas, não consigo me sair bem no colégio. ERRADO

Ex. Deve ter ocorrido algo de ruim, pois, encontrei-a de luto. ERRADO

EXERCÍCIOS

Colocar vírgula onde convier.

Pelos campos pelos bosques por sobre as árvores acima do canto dos pássaros acima dos silvos do vento ouvia-se o apito da locomotiva.

Os dias passavam e o pé de laranja-lima ia de mal a pior.

Não é fácil pegar o trem das 12h pois o sinal para sair toca exatamente ao meio-dia.

Ou as notas de matemática saíram trocadas ou acabo de jogar pela janela mais um semestre de estudo.

Sempre gostei de dar pipoca às pombas nos dias de chuva.

Depois de sete dias de trabalho os diretores da empresa a fim de assegurar sua permanência resolveram aumentar-lhe o salário em 100%.

Todas as vezes em que tentei colocar a coleira em meu cachorro ele terminou mordendo minha perna.

Sim Luiza Paulo é meu filho.

Você verá meu amigo que a vida é dura.

Quero recordar aqui suas virtudes não seus defeitos.

Além disso gostaria de mandá-lo às favas!

A idéia de que voltaria a vê-la contudo mantinha-me nadando.

Os adolescentes que completam 18 anos podem tirar carteira de motorista.

No fundo do meu quintal havia uma porta sem pintura. A porta que estava trancada dava para os fundos de uma velha casa.

O convite dizia que as meninas deveriam levar os salgadinhos; os meninos as bebidas.

Eu ficarei com as brancas e tu com as pretas.

Ponto-e-vírgula

Seu emprego resume-se às três situações seguintes.

a) entre duas orações coordenadas não unidas por conjunção coordenativa (E, NEM, MAS, OU, POIS)

Ex. Nós não quisemos resistir; a situação parecia tensa demais.

b) separar, numa série, itens que já contêm vírgulas

Ex. Vermelho é o sinal para parar; amarelo, para aguardar; e verde, para seguir adiante.

Ex. Poucas pessoas compareceram ao funeral: Maria, sua irmã; João, seu cunhado; Helena, sua fiel enfermeira.

c) separar orações ligadas pelas conjunções CONTUDO, ENTRETANTO, POR CONSEGUINTE, CONSEQUENTEMENTE, PORTANTO

Ex. A lebre corria muito; contudo, a tartatura fazia uma média melhor.

Ex. A presença é obrigatória; portanto, os alunos não têm escolha.

Dois pontos

Empregam-se os dois pontos em três situações básicas:

a) para introduzir uma série de itens

Atenção: os dois pontos só poderão ser empregados se a introdução for uma oração completa!

Ex. As frutas que mais gosto são pitanga, butiá, laranja e goiaba.

Ex. As frutas que mais gosto são: pitanga, butiá, laranja e goiaba. ERRADO

Ex. Gosto muito de certar frutas no verão: pitanga, butiá, laranja e goiaba.

b) para introduzir uma citação formal

c) entre duas afirmativas, quando a primeira introduz claramente a segunda, que lhe serve de explicação ou esclarecimento

Ex. Uma coisa era certa: ele não iria perdoá-lo.

Ex. Vieram os parentes, o cachorro e os passarinhos: uma verdadeira bagunça.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A vírgula


E você acha que pontuação não é importante? Olhe o que uma simples vírgula a mais ou a menos pode fazer...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pontuação: a vírgula!

PASQUALE CIPRO NETO

Vírgula, para que te quero?


Só existe um governador do Estado do Rio de Janeiro; ex-governadores do Rio existem muitos e muitos


VAMOS VOLTAR A TROCAR algumas palavrinhas sobre o glorioso aposto, que, como vimos na semana passada, é palavra ou expressão que se apõe a um termo da frase para explicá-lo, defini-lo, restringi-lo etc. Como também vimos na última coluna, nem sempre o aposto vem entre vírgulas (e, é claro, nem tudo que vem entre vírgulas é aposto).
Posto isso, quero voltar ao aposto que não é separado por vírgula do termo a que se liga. Em casos como "O professor João disse..." ou "O rio Tietê nasce em...", os termos "João" e "Tietê", que nomeiam e restringem, respectivamente, "professor" e "rio", funcionam como aposto.
A ausência de vírgula nos dois casos se deve justamente ao fato de que "João" e "Tietê" restringem os termos a que se ligam (há inúmeros professores e rios no universo).
Talvez seja bom detalhar o que é restringir. Vejam-se estes exemplos: "O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o novo mínimo..."; "O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega disse que o novo mínimo...". Nos trechos vistos, "Guido Mantega" e "Maílson da Nóbrega" têm a função de aposto de "ministro da Fazenda" e de "ex-ministro da Fazenda", respectivamente, já que identificam esses termos. Por que só se empregaram as vírgulas (duas) no primeiro caso?
Vamos lá: só há um ministro da Fazenda; ex-ministros da Fazenda há muitos e muitos. Tradução: "Maílson da Nóbrega" restringe o universo de ex-ministros da Fazenda, por isso não vem separado por vírgulas. O processo é o mesmo que ocorre, por exemplo, em "O professor João disse...", "A presidente Dilma foi...", "O poeta Murilo Mendes viveu..." etc. Não custa lembrar que "João", "Dilma" e "Murilo Mendes" têm função de aposto restritivo, especificador, de "professor", "presidente" e "poeta", respectivamente.
No trecho relativo ao atual ministro da Fazenda, empregam-se as vírgulas porque "Guido Mantega" não é termo restritivo; é explicativo.
O processo é o mesmo que ocorre, por exemplo, em "Ontem, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse que..." ou "O autor da letra de "Travessia", Fernando Brant, afirmou que...". Os termos "Sérgio Cabral" e "Fernando Brant" têm função de aposto (explicativo).
Talvez a esta altura já esteja claro por que não há vírgulas em "O governador Sérgio Cabral disse...", mas há em "O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, disse...". Governadores há muitos; governador do Rio de Janeiro só há um.

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Texto publicado no jornal Folha de S. Paulo, no dia 20 de janeiro de 2011, p. C2.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A vírgula, sempre ela

Texto extraído do site do prof. Moreno - site do qual falamos na última postagem. Claro, preciso e objetivo, o site é uma ótima fonte de aprendizado.

Vírgula depois de sujeito oracional

Existe algum caso na língua portuguesa em que se separa o sujeito do predicado por vírgula? Vejo esse erro com freqüência, até mesmo em veículos da grande imprensa; sempre achei que se tratava de um equívoco, mas fiquei em dúvida quando li a seguinte frase no seu artigo os nomes do peru: “Só sei que naquela época esta era a regra do jogo - quem domina e coloniza, dá o nome”. “Quem domina e coloniza” e “dá o nome” não são, respectivamente, sujeito e predicado da frase?

Guilherme Netto - Paris, França

Sim, Guilherme, está correta sua análise da frase que escrevi, assim como também é verdade que não se deve colocar, na pontuação moderna, uma vírgula entre o sujeito e o predicado. No entanto, como já frisei várias vezes, esta regra de pontuação é mais um conselho do que uma regra propriamente dita. Ela não tem, como as regras de acentuação, aquela obrigatoriedade que não admite divergências, e haverá casos, como este, em que é necessário (ou aconselhável) contrariá-la deliberadamente, a fim de tornar a leitura mais fluente.

O princípio geral é muito simples: como devemos reservar a vírgula para assinalar tudo aquilo que foge à normalidade sintática, é evidente que não há razão para separar o sujeito do verbo, nem o verbo de seu complemento, já que esta é a ordem canônica da frase no Português. Todavia, quando o sujeito for oracional (representado por uma oração subordinada substantiva), os bons escritores empregam, muitas vezes, uma vírgula para assinalar com maior clareza o fim do bloco do sujeito. Em Machado encontramos tanto exemplos sem vírgula (”Quem não viu aquilo não viu nada”; “Quem for mãe que lhe atire a primeira pedra”) quanto com vírgula (”Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”; “Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e os lagos…”; “Quem morreu, morreu”). Um excelente exemplo pode ser encontrado em Vieira: “…ninguém se atreva a negar que tudo quanto houve, passou, e tudo quanto é, passa”. Não podemos negar que a vírgula que foi empregada nos exemplos acima apenas veio facilitar o trabalho de processamento da frase; se ela fosse inadequada, ocorreria o efeito oposto. Foi certamente por isso que os nossos literatos sempre consideraram facultativa a vírgula nesta posição.

Num breve passeio pelo mundo dos provérbios portugueses, há muitos exemplos em que esta vírgula, embora possível, pode ser dispensada: “Quem avisa amigo é”; “Quem bate no cão bate no dono”; “Quem dá o mal dá o remédio”; “Quem quer o fim quer os meios”, “Quem não deve não teme”. Ela passa a ser muito útil, no entanto, nos casos de construção paralela, em que o verbo da oração substantiva é seguido imediatamente pelo verbo da oração principal: “Quem quer, faz; quem não quer, manda”. “Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. “Quem procura, acha; quem guarda, sempre tem”. “Quem não faz, leva”. Agora, se o verbo for idêntico nas duas orações, esta vírgula passa a ser indispensável: “Quem deu, dará; quem pediu, pedirá”. “Quem vai, vai; quem fica, fica”. “Quem sabe, sabe”. “Quem pode, pode” — isso sem falar naqueles casos em que a forma verbal pode se confundir com um substantivo homógrafo, criando-se uma ambigüidade que a vírgula desmancha imediatamente: “Quem quiser, peça“; “Quem ama, cobra“; “Quem teme, ameaça“; “Quem deseja, casa” (não se trata de alguém que quer peça, ou ama cobra, ou teme ameaça, ou deseja casa).

Aqueles que protestam contra essa flexibilidade demonstram que não compreenderam que a razão de ser da pontuação é o leitor. Não se trata, aqui, de voltar àquela antiga visão de pontuação subjetiva, submetida ao simples capricho de quem escreve; bem pelo contrário: a finalidade exclusiva dos sinais de pontuação é orientar o leitor no trabalho de decodificar as frases que escrevemos. Tudo que contribuir para isso será bem-vindo (e vice-versa).

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Os hífens da Reforma

Coluna publicada no jornal Folha de S. Paulo.

Pasquale Cipro Neto

Por falar em "mais-que-perfeito"...

Só nos cabe engolir que a regra é que não há regra clara; é preciso decorar as exceções e ter o "Volp" à mão

NA SEMANA PASSADA, analisei uma questão da última prova da Unifesp, que exigia do candidato o conhecimento do(s) valor(es) de alguns tempos verbais. O protagonista do teste era o pretérito mais-que-perfeito do indicativo.
Pois bem. Levados pela verdadeira salada "hifênica" que foi servida aos brasileiros pela reforma ortográfica (sim, reforma, e não acordo ortográfico, já que, por enquanto, isso tudo não passa mesmo de uma reforma ortográfica -exclusivamente brasileira, visto que os demais países lusófonos ainda não a adotaram), vários leitores escreveram para perguntar sobre os hifens (ou hífenes) de "mais-que-perfeito". "O hífen não caiu em locuções desse tipo?".
É melhor ir logo ao ponto, digo, ao texto oficial do acordo, digo, reforma, que, no sexto item de sua base XV ("Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares"), perpetra esta claríssima resolução: "Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo (sic) algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa). Sirvam, pois, de exemplo de emprego sem hífen as seguintes locuções...".
Vou poupar o prezado leitor dos tais exemplos, quase todos mais do que inúteis, já que quase todas as expressões listadas jamais foram escritas com hífen. Está bem, vou dar umazinha só: "apesar de". Alguém já pensou em escrever isso com hífen? Então para que pôr isso no texto oficial? E qual foi o critério para estabelecer que "pé de moleque" (doce), "mula sem cabeça" (figura do folclore brasileiro), "água de coco" e "água de cheiro" (que se escreviam com hífen) não são casos "consagrados pelo uso"?
Outra falta de nexo no texto oficial se vê no primeiro item da mesma base XV. Nele se fala do hífen em palavras compostas. A coisa começa bem (mantém-se o hífen em compostos como "segunda-feira", "arco-íris", "decreto-lei", "luso-brasileiro", "guarda-chuva", "sul-africano", "mato-grossense" etc.), mas, quando se chega à observação que encerra esse item, encontra-se esta ressalva: "Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista etc.". O leitor leu bem as expressões "certos compostos" e "em certa medida"? E o mais do que abominável "etc."? Que significa isso?
Quando se lê essa ressalva (redigida com precisão inigualável), o mínimo que se pode fazer é usar o velho método da analogia: se ("em certa medida") se perdeu a noção de composição em "paraquedas" (que se escrevia "pára-quedas"), também se perdeu essa noção em...
Pode parar, caro leitor. Em "para-choque", "para-raios" e "para-brisa", mantém-se o hífen. Pode? Não pode, mas... Mas só nos cabe engolir que a regra é que não há regra clara, que é preciso decorar as exceções e, sobretudo, que é mais do que preciso ter à mão o recém-lançado "Vocabulário Ortográfico", para verificar que destino se deu a este ou àquele caso. É isso.

inculta@uol.com.br

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Iotti e a pontuação


O Iotti já aprendeu a importância da pontuação! E você?

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Charge publicada no jornal Zero Hora, em 23 de setembro de 2008.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Restrição e explicação

PASQUALE CIPRO NETO 

Quantas são as feias da festa?


Quando se trata de restrição ou generalização por meio de uma oração iniciada pelo relativo "que", a coisa...

O MAIS RECENTE vestibular da FGV (Fundação Getulio Vargas) apresentou uma questão relativa ao emprego da vírgula antes do pronome relativo "que". A banca pediu aos candidatos que comparassem as seguintes construções, "observando sua pontuação":
"Nesta festa, só beijarei as meninas, que são feias"; "Nesta festa, só beijarei as meninas que são feias".
Em seguida, a banca pedia aos candidatos que assinalassem "a alternativa correta quanto ao sentido dessas frases". Eis as alternativas:
"a) A primeira afirma que todas as meninas da festa são feias -e serão beijadas; b) A primeira afirma que somente as meninas feias serão beijadas; as bonitas não; c) A segunda afirma que todas as meninas da festa são feias -e serão beijadas; d) A segunda afirma que somente as meninas bonitas serão beijadas; as feias não; e) As duas frases afirmam que as meninas bonitas serão beijadas".
A esta altura, o leitor talvez esteja atordoado com tantas exclusões e generalizações (todas serão beijadas; só as bonitas, só as feias...). Peço-lhe um pouco de calma e paciência e, por enquanto, um certo "desprezo" pela seqüência de opções.
Apesar de reproduzirem algo um tanto inverossímil (é pouco provável que alguém diga ou escreva a segunda frase; parece mais natural imaginar que se diga "Só beijarei as meninas feias" ou "Só beijarei as feias"), o fato é que há por trás de tudo isso uma velha conversa: "Quando se restringe, não se virgula; quando se generaliza, virgula-se". Grosso modo, é assim mesmo. Quem lê uma frase como "Trabalharei apenas com as meninas rebeldes", por exemplo, provavelmente entenda de imediato que: a) em determinado grupo algumas meninas são rebeldes e outras são "conformistas"; b) trabalharei só com as rebeldes.
No caso visto, o adjetivo "rebelde" tem papel restritivo, por isso não é separado por vírgula do substantivo que qualifica. Seguindo a mesma linha que norteou a banca da FGV, compare agora estas frases: "Os deputados extenuados deixaram o plenário"; "Os deputados, extenuados, deixaram o plenário".
E então? Que percebe o leitor?
Que foi realizada uma extenuante sessão do Parlamento -durou horas e horas a tal sessão. No primeiro caso (sem as vírgulas), informa-se que deixaram o plenário os deputados extenuados; os que ainda tinham energia permaneceram. No segundo caso (com "extenuados" entre vírgulas), informa-se que todos os deputados de que se falava deixaram o plenário extenuados.
Quando se trata de restrição ou generalização por meio de uma oração iniciada pelo relativo "que", a coisa funciona(ria) do mesmo modo, mas... Mas o fato é que, talvez por exigir conhecimento um tanto específico, o emprego da vírgula antes da oração explicativa (aquela que generaliza) nem sempre é observado. O resultado disso é que muitas vezes se lê algo como "Os jogadores que desconhecem as regras receberão instruções de árbitros da Fifa" no lugar de "Os jogadores, que desconhecem as regras, receberão instruções de...".
A primeira frase informa que só os jogadores que desconhecem as regras receberão as instruções; a segunda informa que todos os jogadores de que se fala desconhecem as regras e receberão as instruções. Sim, já sei: falta a resposta do teste da FGV. Acho que você já sabe, não? Vamos lá: é "a", certo? É isso.

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Publicado na Folha de São Paulo em 04 de setembro de 2008, p. C2

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

A vírgula, por Martha Medeiros

A vírgula

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) completou cem anos em abril e aproveitou para lançar uma campanha muito útil a todos os brasileiros, não só aos jornalistas. Ela defende o uso correto da vírgula.

Todas as pessoas alfabetizadas escrevem. Escrevem e-mails, bilhetes, cartões, teses, contratos, receitas, blogs e mais um sem-fim de palavras. Algumas escrevem para si mesmas, e, nesse caso, até dá para perdoar um certo relaxamento, mas a maioria escreve para ser lida por outro alguém, e quem faz isso ambiciona ser compreendido. Então. O uso correto da vírgula é crucial para alcançar esse objetivo.

No entanto, o critério para “uso correto” continua sendo, para muitos, o da respiração. As pessoas escrevem como se estivessem conversando, e se imaginam que fariam uma pausa dramática num determinado momento, pronto: decidem que ali cabe uma vírgula. Entendo. Eu, às vezes, faço a mesma coisa. Por exemplo, deu vontade de não colocar entre vírgulas o “às vezes” que acabei de escrever. Preferiria ter escrito: “Eu às vezes faço a mesma coisa”, porque eu, normalmente, falaria essa frase de forma veloz, e não pausada. Mas a vida não é tão simples. Salvo algumas licenças poéticas, é preciso seguir à risca os mandamentos da vírgula. Não me pergunte quais são, não sei, sempre escrevi por instinto, mas a ABI sabe e resolveu entrar nessa campanha dando exemplos muito práticos, que transcrevo abaixo.

“A vírgula pode ser uma pausa... ou não:

Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro:

23,4%
2,34%

Pode ser autoritária:

Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis:

Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões:

Esse, Juiz, é corrupto.
Esse Juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução:

Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião:

Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A campanha termina dizendo que a vírgula muda tudo. Dou outro exemplo. Dia desses, um moço mandou um e-mail para um programa de rádio que começava assim: “Eu como colono...” O radialista ficou injuriado, que pouca-vergonha era aquela? A vírgula que faltou poderia ter evitado o mico. “Eu, como colono, gostaria de...”. Pois é. Pequeninha, mas salva até reputações.

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Publicado no jornal Zero Hora, em 06 de agosto de 2008, página 3