quinta-feira, 9 de junho de 2011

Genial como sempre

Sempre excelente, segue a coluna do prof. Pasquale publicada na Folha de S. Paulo de hoje:

PASQUALE CIPRO NETO

"Se der um tapa na bola, Neymar ia..."


A linguagem se adapta ao veículo. Quando o locutor disse a primeira parte da frase, Neymar de fato...

O CARO LEITOR CERTAMENTE já ouviu falar de correlação verbal, não? Bem, os que leem habitualmente esta coluna, os que estão às voltas com vestibulares e concursos e os que estudam a língua, entre outros, decerto já ouviram falar disso.
Para quem não sabe ou esqueceu, lá vai: a correlação verbal se ocupa do casamento entre o tempo e o modo de duas formas verbais de um mesmo período. Vamos a alguns exemplos básicos: "Se ele/a for embora, o que você fará?"; "Se ele/a fosse embora, o que você faria?".
No primeiro exemplo, há correlação entre as formas verbais "for" (do futuro do subjuntivo) e "fará" (do futuro do presente do indicativo). No segundo, a correlação se dá entre "fosse" (do pretérito imperfeito do subjuntivo) e "faria" (do futuro do pretérito do indicativo).
Se o caro leitor tiver ficado enjoado com tantos nomes de tempos e modos verbais, tome um digestivo, digo, esqueça essa montoeira de nomes e guie-se pelo senso, pelo bom senso, pela intuição, que, quase sempre, resolvem o problema.
Por que "quase sempre"? Porque há alguns casos capciosos, que às vezes nos pregam surpresas. Um desses casos é o da forma "havia", do verbo "haver". No padrão formal da língua, é desejável que se prefira essa flexão à do presente do indicativo ("há") em construções como estas: "Havia seis anos que o importante projeto estava parado nas gavetas do Congresso"; "Quando eles se conheceram, havia dois anos que o ex-ministro ocupava a pasta".
Nos exemplos do parágrafo anterior, comprova-se a pertinência do emprego da forma "havia" com a simples substituição dessa flexão por "fazia": "Fazia seis anos que o importante projeto estava parado nas..."; "Quando eles se conheceram, fazia dois anos que o ex-ministro ocupava...". As formas "havia" e "fazia" são do mesmo tempo verbal (pretérito imperfeito do indicativo).
Na língua do dia a dia, a forma "havia" é substituída por "há", que, na prática, funciona como partícula intemporal. São comuns nessa variedade da língua (e mesmo em vários registros escritos) construções como estas: "Ele trabalhava lá há seis anos" ou "Eu não via seu primo há seis anos". Esse uso é tão disseminado que, em seu "ABC da Língua Culta", Celso Luft assim escreve na entrada "há": "Forma do verbo haver, significando: 1. Faz ou fazia: Há um ano que não o vejo. Há um ano que tinha desaparecido (melhor, coordenando os tempos: Havia um ano que tinha desaparecido)".
Como se vê, Luft dá "há" como equivalente a "faz" ou "fazia", mas logo faz a observação sobre o que é "melhor". E por que será "melhor"? Talvez porque em determinados registros podem caber as duas formas, com valores distintos. Vejam-se estes exemplos: "Ela estava no hospital há um ano"; "Ela estava no hospital havia um ano". Percebeu? No primeiro exemplo, informa-se que há um ano, ou seja, um ano atrás, ela estava no hospital (não se diz quanto tempo ela passou lá); no segundo, informa-se que fazia um ano que ela estava no hospital.
E onde entra Neymar na conversa? Vamos lá. Dia desses, um locutor disse isto: "Se der um tapa na bola, Neymar ia ficar sozinho". Terá ele errado a correlação entre "der" e "ia ficar" (= "ficaria")? Não e não, caro leitor. A linguagem se adapta ao veículo. Quando o locutor disse a primeira parte da frase ("Se der um tapa na bola" -o sujeito dessa oração não era "Neymar"; era o jogador que daria o tapa na bola), Neymar de fato ficaria sozinho se o outro jogador... Mas o passe não foi dado, e o raciocínio do locutor foi tão rápido quanto o desfecho do lance, por isso a troca de "vai ficar" (= "ficará"), por "ia ficar". É isso.

inculta@uol.com.br

terça-feira, 7 de junho de 2011

Por que escrever corretamente?

Deveria parecer óbvio, mas às vezes é melhor explicar com calma. Escrever corretamente não é apenas questão de elegância, sofisticação ou sabedoria. Escrever corretamente trata-se de transmitir exatamente a ideia que se quer passar. Pode parecer pouco, mas é possível que exista uma enorme diferença entre o que você pensou e o que colocou no papel. Dependendo do caso, isso pode custar dinheiro ou incomodação. Quer ver?

Se você acha que não há diferença entre as seguintes frases (“O concurso começa em agosto, e você deve se inscrever neste momento” e “O concurso começa em agosto, e você deve se inscrever nesse momento”), saiba que você poderá perder a data de inscrição no referido concurso. Já é um mal bem grande, não?!

E por que isso acontece? Porque, na primeira frase, está dito que a inscrição é agora, neste momento, hoje. Na segunda frase, diz-se que a inscrição é somente em agosto, no mesmo mês em que começa o concurso. Temos certeza de que você não sabia que a substituição de apenas uma letra poderia mudar tanto o sentido da frase! Pois é. “Neste momento” significa agora, hoje, no momento presente. “Nesse momento” vai sempre remeter ao momento do qual o texto fala, e não ao momento atual. Agora imagine a substituição sem critérios de uma palavra por outra em um contrato, por exemplo! Já percebeu a lambança que isso pode causar?

E por que, na frase acima, escrevemos “isso”, e não “isto”? “Isso” vai sempre indicar algo que já foi dito no texto. “Isto”, algo que ainda vai ser introduzido. Exemplos? Para o primeiro caso: “Temos que escrever corretamente, pois isso nos ajudará a melhorar a comunicação”. E para o segundo: “Para melhorar nossa comunicação, temos de fazer isto: escrever direito”.

Há também outro uso para o “isso” e “isto”, que se refere à proximidade dos elementos na frase. Mas essa explicação fica para uma próxima!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Só Vírgula


Dica preciosa para você aprender a escrever melhor: insistimos no assunto pontuação (e principalmente vírgula) porque é nesse tópico que notamos a maior quantidade de erros hoje em dia. E uma vírgula, você já viu aqui no blog, pode mudar todo o sentido da sua frase!


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pontuação

Veja o material que a 3GB Consulting preparou para você!

Faça os exercícios ao final, e se não tiver certeza das respostas, envie-nos um e-mail para duvidas@3gbconsulting.com.br. Enviaremos o gabarito para você!

Não erre mais! Saiba tudo sobre pontuação!


1. Vírgula

A vírgula é o sinal com maior variedade de uso; por isso, é aquele que oferece maiores oportunidades de erro. O principal é pensar que, a cada pausa da fala corresponde uma vírgula, o que é errado! Esquecer essa noção é o primeiro passo no sentido de utilizar a vírgula com segurança. A seguir, apresentamos as justificativas para emprego desse sinal.

a) separar os itens de uma série

Ex. Quero uma bebida gelada, uma carne ao ponto e um prato de sobremesa.

Os itens são separados todos com vírgulas, com exceção dos dois últimos, que são unidos por “E”.

Ex. O cachorro, o urso, o elefante E o pássaro não comem mais.

Atenção: há um outro padrão, no qual todos os itens são separados por vírgula. Essa construção visa demonstrar que os elementos citados não esgotam os objetos envolvidos na situação.

Ex. Era um sujeito alto, calmo, silencioso. (Ele não era só isso, tinha outras características, mas são essas as que se quis destacar).

b) separar orações ligadas por conjunções coordenativas

As orações coordenadas por E, MAS, NEM, OU ou POIS vêm separadas por vírgulas.

Ex. Não vou dar presentes no Natal, NEM espero receber coisa alguma.

Atenção: só se emprega a vírgula antes do E quando ele liga duas orações de sujeitos diferentes.

Ex. O pai saiu cedo de casa, e a mãe ficou até mais tarde.

Atenção: quando as orações forem curtas, pode-se omitir a vírgula; nunca, porém, antes do POIS.

Ex. Tentei falar mas não deixaram.

Ex. Ela está em casa, pois vi a luz acessa.

c) separar adjuntos adverbiais deslocados

Sempre que o adjunto adverbial vier for a de sua posição normal (que é no fim da frase), deve ser separado por vírgula.

Ex. Em dois anos de trabalho, jamais havia falado com meu colega.

Quando o adjunto for de pequena extensão, a vírgula pode ser omitida.

Ex. Ontem passamos o dia pescando.

d) separar aposto e vocativo

O aposto vem sempre separado por vírgula.

Ex. José, marido da secretária, é um bom sujeito.

O vocativo (usado para chamar a atenção do interlocutor) segue a mesma regra.

Ex. Não sei, Carlos, se isso dará certo.

Ex. Só tem uma Coca-Cola na geladeira, mãe.

e) separar elementos intercalados

Os elementos intercalados podem ser comentários sobre o que está sendo dito, expressões que exemplifiquem o que se diz, que estabelecem um contraste ou conjunções adversativas e conclusivas (PORÉM, TODAVIA, LOGO, PORTANTO…).

Ex. A lua, voce sabe, não é o único satélite da Terra.

Ex. Ele conhece, além disso, nossa verdadeira história.

Ex. A baleia, não José, é quem me preocupa. Quero o jantar feito pelo cozinheiro, não pelo jardineiro.

Ex. O comandante, porém, mandou parar o navio. Ninguém sabia, portanto, se a medida era acertada.

f) separar elementos não-restritivos

As orações não-restritivas referem-se a todo o conjunto ou a um elemento já apresentado e definido anteriormente. São sempre isoladas por vírgulas.

Ex. O prefeito da cidade, que não era burro, mandou prender o impostor.

g) indicar a supressão do verbo

A supressão do verbo (elipse) deve ser indicada por uma vírgula, que aparece exatamente no local de sua supressão.

Ex. Maria colhia amoras, e João, pitangas

Atenção: essa situação ocorre apenas quando os sujeitos são diferentes; se tivermos um elemento composto, a vírgula seria inadequada.

Ex. Maria colhia amoras e pitangas.

1.1 Vírgulas desnecessárias

Ao pontuar, evite os seguintes erros.

a) separar o sujeito do verbo, o verbo do complemento ou o adjetivo do substantivo

Ex. A chuva muito prolongada, causou danos consideráveis. ERRADO

Ex. Por que tinha de agüentar aquele menino, mal-educado? ERRADO

Ex. O gato do menino que mora na casa ao lado do Armazém, fugiu pra Bahia. ERRADO


b) separar elementos compostos, unidos por uma conjunção coordenativa

Ex. Perdeu o emprego, e a noiva. ERRADO

c) separar adjuntos adverbiais curtos ou em posição normal na frase (a posição normal é sempre no fim da frase)

Ex. Domingo, fui ao estágio. ERRADO

Ex. O atacante esperou a saída do goleiro e atirou a bola, no canto esquerdo. ERRADO

d) separar orações restritivas

Ex. Todo jovem, que tem a cabeça no lugar, prefere uma bicicleta mais simples. ERRADO

e) colocar vírgula antes do primeiro ou depois do último item de uma série

Ex. História, Geografia e Português, são matérias que não me agradam. ERRADO

f) colocar vírgula depois de conjunção coordenativa

Ex. Sou vegetariano desde pequeno, mas, não consigo me sair bem no colégio. ERRADO

Ex. Deve ter ocorrido algo de ruim, pois, encontrei-a de luto. ERRADO

EXERCÍCIOS

Colocar vírgula onde convier.

Pelos campos pelos bosques por sobre as árvores acima do canto dos pássaros acima dos silvos do vento ouvia-se o apito da locomotiva.

Os dias passavam e o pé de laranja-lima ia de mal a pior.

Não é fácil pegar o trem das 12h pois o sinal para sair toca exatamente ao meio-dia.

Ou as notas de matemática saíram trocadas ou acabo de jogar pela janela mais um semestre de estudo.

Sempre gostei de dar pipoca às pombas nos dias de chuva.

Depois de sete dias de trabalho os diretores da empresa a fim de assegurar sua permanência resolveram aumentar-lhe o salário em 100%.

Todas as vezes em que tentei colocar a coleira em meu cachorro ele terminou mordendo minha perna.

Sim Luiza Paulo é meu filho.

Você verá meu amigo que a vida é dura.

Quero recordar aqui suas virtudes não seus defeitos.

Além disso gostaria de mandá-lo às favas!

A idéia de que voltaria a vê-la contudo mantinha-me nadando.

Os adolescentes que completam 18 anos podem tirar carteira de motorista.

No fundo do meu quintal havia uma porta sem pintura. A porta que estava trancada dava para os fundos de uma velha casa.

O convite dizia que as meninas deveriam levar os salgadinhos; os meninos as bebidas.

Eu ficarei com as brancas e tu com as pretas.

Ponto-e-vírgula

Seu emprego resume-se às três situações seguintes.

a) entre duas orações coordenadas não unidas por conjunção coordenativa (E, NEM, MAS, OU, POIS)

Ex. Nós não quisemos resistir; a situação parecia tensa demais.

b) separar, numa série, itens que já contêm vírgulas

Ex. Vermelho é o sinal para parar; amarelo, para aguardar; e verde, para seguir adiante.

Ex. Poucas pessoas compareceram ao funeral: Maria, sua irmã; João, seu cunhado; Helena, sua fiel enfermeira.

c) separar orações ligadas pelas conjunções CONTUDO, ENTRETANTO, POR CONSEGUINTE, CONSEQUENTEMENTE, PORTANTO

Ex. A lebre corria muito; contudo, a tartatura fazia uma média melhor.

Ex. A presença é obrigatória; portanto, os alunos não têm escolha.

Dois pontos

Empregam-se os dois pontos em três situações básicas:

a) para introduzir uma série de itens

Atenção: os dois pontos só poderão ser empregados se a introdução for uma oração completa!

Ex. As frutas que mais gosto são pitanga, butiá, laranja e goiaba.

Ex. As frutas que mais gosto são: pitanga, butiá, laranja e goiaba. ERRADO

Ex. Gosto muito de certar frutas no verão: pitanga, butiá, laranja e goiaba.

b) para introduzir uma citação formal

c) entre duas afirmativas, quando a primeira introduz claramente a segunda, que lhe serve de explicação ou esclarecimento

Ex. Uma coisa era certa: ele não iria perdoá-lo.

Ex. Vieram os parentes, o cachorro e os passarinhos: uma verdadeira bagunça.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Do jornal Zero Hora

Coluna publicada no jornal Zero Hora em 24 de maio de 2011.

LUÍS AUGUSTO FISCHER

Ensinar ou debater errado?

Notícia boa é saber que a escola em geral e o ensino de Português em particular estão na ordem do dia – a preocupação aumentou, e disso pode resultar um desenvolvimento inédito da área em nosso país. Notícia ruim é constatar que o debate em torno desses relevantes temas é ruim, meio torto, fruto direto da falta de intimidade com a questão por parte dos meios de comunicação massivos.

Vamos a uma analogia: lembra quando a mídia começou a falar da aids? Tinha de tudo em matéria de reação e demoramos muitos anos de debates e reportagens, ouvindo especialistas, vítimas e população em geral, até que agora estamos numa situação razoável. Daquelas primeiras reações (“aids pega em aperto de mão?”) até agora, quanta água rolou, não foi?

O caso atual é bem parecido. O evento mais notório é o do livro didático que o MEC bancou para trabalho com EJA, Ensino de Jovens e Adultos, para gente fora da seriação escolar típica, adultos que há tempos não estudam, se é que alguma vez estudaram. Muitos estão opinando sem ler, ou sem ler direito. Vários textos aqui mesmo na Zero expressaram isso. O que dizem reflete mais a precariedade de informação do que o tema em pauta.

Não duvido da boa-fé de ninguém. Ocorre que tais textos (dois apenas no domingo passado) reagem ao trabalho de linguistas especializados da área da descrição científica e do ensino de línguas do mesmo modo como certas pessoas olham com desconfiança a receita dada por um médico especialista na doença, duvidando que aquilo possa fazer tão bem quanto o velho e conhecido chazinho que a vó preparava. A analogia é imperfeita, como são todas as analogias (do contrário, seriam igualdades), mas ajuda a entender, senão o mérito do problema, ao menos a forma que o problema alcançou na mídia. O chá da vó pode ser bom, mas definitivamente não ajuda a entender melhor o problema (pode até mascará-lo, como recente série do Fantástico mostrou, com Drauzio Varella), nem a curar o doente.

Li o capítulo polêmico do livro (que está em vários lugares da internet) e, caro leitor, o livro está certo, certíssimo: conversa com o leitor (do EJA) para demonstrar (não apenas constatar) a existência da variação social da língua falada e da língua escrita e – atenção – para mostrar o caminho até a forma culta, prestigiada, que os não-especialistas chamam de certa.

Eu também tenho saudade do tempo em que o médico chegava e, apenas botando a mão na testa da gente, dava diagnóstico e prognóstico sem erro; mas hoje isso não existe mais. Não estou dizendo que tudo está bem, no ensino de Português ou no MEC; há interrogações grandes, mesmo nisso que acabei de dizer, mas acabou o espaço, enquanto o problema está só começando a se configurar na arena pública.

domingo, 22 de maio de 2011

Tem jeito certo?

Coluna do David Coimbra no jornal Zero Hora de hoje:

DAVID COIMBRA

O jeito certo é o jeito certo

Você vai a uma vila de qualquer cidade brasileira e ouve uma mãe chamando:

– Wescley, Wellington, Jennifer, Suellen e Pâmela: já pra casa!

São ipsilones, dáblios e eles duplos às catadupas, isso para não citar os vários tipos de Maicons (o mal que Michael Jackson fez ao Brasil ainda será devidamente apurado). Por que essa paixão pelo anglicismo? Porque o pobre acha que o nome em inglês é coisa sofisticada. Coisa de rico.

Aí o rico, o que ele faz? Bota no filho o nome mais ortodoxo possível, um nome que, na década de 70, seria da avó: Maria Carolina, Antonieta, Antônio Pedro, Carlota, João.

***

O pobre gostaria de ser rico. O pobre não quer ter um Fusca 77; quer a BMW do ano. O pobre não quer morar na vila; quer uma cobertura no Moinhos de Vento. Significa que ele despreza seu Fusca ou sua casinha? Não. Ele valoriza um e outra. Afinal, é o que tem. Mas ele preferia ter algo melhor.

Sou neto de sapateiro, já contei. Meu avô não estudou. Aprendeu a ler e a escrever sozinho. Lia muito e valorizava a cultura. Escrevia errado, e se envergonhava disso. Às vezes, apontando para o radinho de pilha sobre sua mesa de trabalho, suspirava:

– David, ouve só o Cândido Norberto e o Mendes Ribeiro falando. Presta atenção: como eles falam bem, como falam certo. Que bonito isso. A gente tem que se esforçar para falar certo.

Meu avô admirava um conhecimento que ele não tinha.

***

É melhor ser rico, bonito e com saúde do que pobre, feio e doente. Óbvio. Mas nem todo mundo pensa assim. Li, na Zero Hora de quinta-feira, a doutora em linguística Ana Maria Stahl Zilles defender, em entrevista, o livro do MEC que ensina a falar errado. Para ela, o livro não ensina a falar errado. Diz a doutora sobre o livro: “Faz a distinção entre a variedade popular e a variedade culta, e mostra que elas têm sistemas de concordâncias diferentes. Eles dizem que na variedade popular basta que o primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente. Quando os autores explicam que é possível falar ‘os peixe’, não estão querendo dizer que esse é o certo, nem vão ensinar a pessoa a escrever errado. Isso é como as pessoas já falam”. Mais adiante a doutora observa: “Se um professor diz para um aluno que o modo que ele, os pais dele e os amigos dele falam está errado, ele vai se sentir entre dois mundos”.

Cultivo a sólida certeza de que a professora Ana Maria é competente e culta, mas talvez haja algo que ela não saiba. É o seguinte: as pessoas NÃO QUEREM falar errado. Elas NÃO GOSTAM de falar errado. Elas TÊM VERGONHA de falar errado. Mesmo, e principalmente, os pobres. Os pobres QUERIAM MUITO que lhes fosse ensinado como falar corretamente. E outra: os pobres JÁ SABEM que estão entre dois mundos.

***

Ah, sim, a língua é dinâmica e muito do que hoje é certo amanhã não será. Há o que caia em desuso – ninguém mais escreve destarte e outrossim porque ninguém mais fala destarte e outrossim. Há o que se consagre pelo uso – as pessoas já estão escrevendo “se diria” porque todos falam “se diria”; ninguém fala “dir-se-ia”. Um dia, viveremos num mundo sem mesóclises.

Mas essas mudanças ocorrem lentamente e são absorvidas ainda mais lentamente pela língua padrão. Primeiro, se consagram na língua falada. Depois, aos poucos, são reproduzidas pela língua escrita. Só então, quando já se tornaram de uso corrente, é que aparecem em um livro didático, como esse ERRADO do MEC.

***

Duvido que alguém minimamente letrado não se sinta levando um soco no ouvido ao ler “os peixe”. Algum gaiato há de lembrar que Lula fala “os peixe” e é popular. Mas, creia, Lula é popular apesar de falar “os peixe” e não por causa de. Repito: o pobre não quer ser ignorante.

Quando o pobre, o rico, o remediado, quando qualquer pessoa passa pela escola, quando ela aprende e lê e se informa, ela cresce espiritualmente. Ela se transforma. Ela repudia a ignorância e a grosseria. Repudia, por exemplo, o racismo em qualquer parte, inclusive nos estádios de futebol. Ela se arrepia quando alguém escreve ou fala errado. Porque, mais do que os doutores, ela sabe como é ruim não saber.




sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dia da Língua Nacional