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quinta-feira, 22 de julho de 2010
Dica de site
terça-feira, 15 de junho de 2010
Dicionário analógico da língua portuguesa

Surpreendido pela nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, sinto como se revirassem meus baús e espalhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia
Pouco antes de morrer, meu pai me chamou ao escritório e me entregou um livro de capa preta que eu nunca havia visto. Era o dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Ficava quase escondido, perto dos cinco grandes volumes do dicionário Caldas Aulete, entre outros livros de consulta que papai mantinha ao alcance da mão numa estante giratória. Isso pode te servir, foi mais ou menos o que ele então me disse, no seu falar meio grunhido. Era como se ele, cansado, me passasse um bastão que de alguma forma eu deveria levar adiante. E por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas em que eu o folheava à toa; o amor aos dicionários, para o sérvio Milorad Pavic, autor de romances-enciclopédias, é um traço infantil no caráter de um homem adulto.
Palavra puxa palavra, e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo (desenfado, espairecimento, entretém, solaz, recreio, filistria). O resultado é que o livro, herdado já em estado precário, começou a se esfarelar nos meus dedos. Encostei-o na estante das relíquias ao descobrir, num sebo atrás da Sala Cecília Meireles, o mesmo dicionário em encadernação de percalina. Por dentro estava em boas condições, apesar de algumas manchas amareladas, e de trazer na folha de rosto a palavra anauê, escrita a caneta-tinteiro.
Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas. E ao vê-lo dar sinais de fadiga, saí de sebo em sebo pelo Rio de Janeiro para me garantir um dicionário analógico de reserva. Encontrei dois, mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país afora, só em São Paulo adquiri meia dúzia de exemplares, e ainda arrematei o último à venda na Amazon.com antes que algum aventureiro o fizesse. Eu já imaginava deter o monopólio (açambarcamento, exclusividade, hegemonia, senhorio, império) de dicionários analógicos da língua portuguesa, não fosse pelo senhor João Ubaldo Ribeiro, que ao que me consta também tem um, quiçá carcomido pelas traças (brocas, carunchos, gusanos, cupins, térmitas, cáries, lagartas-rosadas, gafanhotos, bichos-carpinteiros).
A horas mortas, eu corria os olhos pela minha prateleira repleta de livros gêmeos, escolhia um a esmo e o abria a bel-prazer. Então anotava num Moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais.
Hoje sou surpreendido pelo anúncio desta nova edição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Sinto como se invadissem minha propriedade, revirassem meus baús, espalhassem aos ventos meu tesouro. Trata-se para mim de uma terrível (funesta, nefasta, macabra, atroz, abominável, dilacerante, miseranda) notícia.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Silepse
"Vossa Excelência parece contrariado/a"
Em "Vossa Excelência parece contrariado", o adjetivo "contrariado" concorda com o sexo do ser representado |
Vimos que em "botam a gente comovido" ocorre uma concordância diferente da que pregam as regras gramaticais. O adjetivo "comovido", masculino, não concorda com o substantivo "gente", feminino, mas com o seu significado ou valor. Esse "a gente" está aí por "eu". Em casos como esse, a expressão "a gente" é definida como "a(s) pessoa(s) que fala(m)"; "eu", "nós" ("Aulete", versão eletrônica) ou como "a pessoa que fala em nome de si própria e de outro(s)"; "nós" ("Houaiss"). É bom lembrar que o nome desse fenômeno linguístico é "silepse" (concordância com a ideia, com o sentido mais próximo, e não com a forma).
Notou o que fez o "Houaiss" na definição de "a gente"? Vamos lá: que dizer da sequência "pessoa", "própria" e "outro(s)"? A forma "outros" não carece de explicação, já que pode muito bem ter o sentido de "as outras pessoas", mas e a forma "outro" ("a pessoa que fala em nome de si própria e de outro")? Não seria "outra"? Ou será esse outro caso de silepse? E, se for, a que termo se referirá a palavra masculina "outro"?
Que tal vermos os tipos de silepse? Como as concordâncias (verbal/nominal) podem envolver o gênero (masculino/feminino), o número (singular/plural) e a pessoa (primeira/segunda/terceira), são essas as classificações dos diversos tipos de silepse. Quando se diz, por exemplo, que "São Paulo é insuportavelmente suja e esburacada", com quem concordam os adjetivos "suja" e "esburacada", femininos? Com "São Paulo", que, ao pé da letra, é expressão masculina?
Certamente não. Esses adjetivos concordam com o sentido de "São Paulo" (a cidade de São Paulo).
O caso que acabamos de ver é de silepse de gênero, já que o que se trocou foi justamente o gênero (em vez do masculino, da expressão "São Paulo", empregou-se o feminino, em acordo com o sentido).
É nesse caso que se enquadra o título desta coluna. Em "Vossa Excelência parece contrariado", o adjetivo masculino "contrariado" não concorda com a forma feminina da expressão de tratamento "Vossa Excelência", mas com o sexo do ser representado (um deputado, senador, prefeito, governador, presidente etc.). Se a frase fosse dirigida a uma mulher, seria empregada a forma feminina ("contrariada").
Vejamos outro caso: "Os professores temos plena consciência de que...". Essa frase só pode ser dita por um... Por um professor, é claro.
Quando atuam como sujeito, formas como "os professores" costumam levar o verbo para a terceira pessoa do plural ("Os professores têm plena consciência de que...").
No exemplo visto, quebrou-se a "normalidade" com o emprego de "temos", da primeira do plural, que não concorda com "os professores", mas com "nós", forma presente no pensamento de quem emitiu a frase (obrigatoriamente um professor). A silepse agora é de pessoa, já que se trocou a terceira do plural ("eles") pela primeira ("nós").
Por fim, veja este exemplo: "Pediu à turma que não fizessem barulho". A quem se refere a forma verbal "fizessem"? Ao substantivo coletivo "turma", cuja forma é do singular? Não. A forma "fizessem" concorda com o significado da palavra "turma". O que há aí, portanto, é um caso de silepse de número, já que se trocou o singular (de "turma") pelo plural (de "alunos", "colegas", "companheiros"). É isso. inculta@uol.com.br
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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 22 de abril de 2010.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Língua - Revista Veja
Idioma
A multiplicação das palavras
Os vocábulos estrangeiros se incorporam ao português numa velocidade assombrosa, enriquecem a língua e levantam a discussão sobre adaptar ou não sua grafia
Nataly Costa
| Thiago Prado Neri/Tv Globo |
| Letra por letra Daniel (primeiro à esq. no trio ao centro da foto), no Caldeirão do Huck: traído pela palavra kirsch, recente no português |
Para se ter uma ideia da agilidade desse processo de transformação da língua, os editores dos dicionários Aurélio, Houaiss e Larousse usam um programa de computador desenvolvido para pesquisar continuamente palavras estrangeiras que aparecem nos jornais, revistas e sites brasileiros. Quando o uso de uma palavra se torna frequente, é sinal de que pode ser a hora de dicionarizá-la. A ideia de que é preciso aportuguesar os vocábulos estrangeiros, segundo os especialistas, está ultrapassada. O que determina o aportuguesamento ou não de palavras estrangeiras é a forma como a população se familiariza com elas. De acordo com a lexicógrafa Thereza Pozzoli, da equipe do dicionário Larousse, alguns vocábulos, graças à semelhança com a morfologia e a fonética brasileiras, são adaptados para o idioma com naturalidade. É o caso de blecaute, ateliê, quiosque e surfe. Outros termos mantêm a forma do idioma original, como marketing, design e réveillon. Há palavras aportuguesadas que figuram no dicionário, mas não vingam no dia a dia, como esqueite (skate) e leiaute (layout). "Nem sempre optamos pelo aportuguesamento, pois o uso do vocábulo em sua língua original se mostra preponderante", explica Renata Menezes, da equipe do Aurélio.
A multiplicação das palavras estrangeiras no português pode apavorar os puristas do idioma, como o deputado Aldo Rebelo, cuja luta para proibir os estrangeirismos no país já se tornou folclórica. Para estes, o exemplo a ser seguido é o de Portugal, que tenta traduzir tudo para a língua nativa – o mouse do computador, por exemplo, é chamado de rato. Os grandes linguistas brasileiros, contudo, concordam que os termos estrangeiros servem para enriquecer o idioma, não para prejudicá-lo. "Se o estrangeirismo fosse nocivo, a própria língua trataria de expulsá-lo", pondera o gramático Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras.
A história mostra que é da natureza dos idiomas incorporar vocábulos estrangeiros e que, nesse processo, eles evoluem. Na Idade Média, a língua portuguesa contava com apenas 15 000 palavras. Hoje, são mais de 400 000, muitas delas importadas, através dos séculos, do árabe, do italiano, do francês e do inglês. O linguista americano Noah Webster (1758-1843), considerado "o pai da educação" em seu país, costumava lembrar que o idioma vive e pulsa no dia a dia da população, e não nos gabinetes dos intelectuais. Dizia ele: "A língua não é uma construção abstrata dos sábios, ou dos dicionaristas. Ela nasce do trabalho, das necessidades, das relações humanas, das alegrias, afeições e experiências de muitas gerações". O termo alemão kirsch, que derrubou o estudante Daniel Coutinho na TV, poderá um dia soar natural para seus filhos.
Língua viva e veloz
No passado, os dicionaristas esperavam dez anos para verificar se uma palavra estrangeira fora adotada plenamente no país. Hoje, com a rapidez com que os estrangeirismos são incorporados ao português, esse prazo é de um ou dois anos. A seguir, vocábulos que serão incluídos na próxima edição do Dicionário Aurélio*
Tecnologia
Smartphone – Celular com alguns recursos de computador
Pop-up – Janela que se abre em página da internet para propaganda
MP3 – Forma de compactação de arquivos de áudio
Antispam – Programa que previne publicidade eletrônica não solicitada
Bluetooth – Tecnologia para conectar dispositivos sem o uso de cabo
Gastronomia
Blanquette– Guisado de carne branca
Chutney – Tipo de geleia de origem indiana
Muffin – Pão fofo doce assado em pequenas fôrmas
Sashimi – Prato da culinária japonesa que consiste em fatias de peixe cru
Bock – Tipo de cerveja adocicada e de teor alcoólico forte
Pierogi – Prato da culinária polonesa que consiste em pastéis cozidos
com diversos tipos de recheio
Comportamento/Esportes
Bullying – Violência psicológica ou física praticada repetidamente
Antidoping – Tipo de exame que busca identificar substâncias de uso proibido no sangue dos atletas
Barwoman – Mulher que prepara drinques profissionalmente
Off-road – Diz-se de veículo próprio para trafegar em terrenos acidentados
Brake-light – Luz de freio dos veículos
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Publicado na Revista Veja de 21 de abril de 2010, edição 2161
quarta-feira, 14 de abril de 2010
NEGÓCIOS >> Presença no microblog pode dobrar a quantidade de mensagens postadas sobre a marca no serviço, diz pesquisa
| Reprodução |
DA REPORTAGEM LOCAL
O estudo analisou 91.145 mensagens trocadas no microblog sobre 50 marcas de relevância nacional, de oito setores econômicos, durante o período de 20 de setembro a 24 de outubro de 2009.
Cláudio Torres, consultor em marketing digital que participou da pesquisa, diz que o aumento expressivo no número de internautas brasileiros contribui para que as empresas deem mais atenção às mídias sociais. "Eram cerca de 28, 29 milhões de internautas em 2007. Hoje em dia os últimos números já falam em mais de 67 milhões", diz.
Das 50 empresas pesquisadas, 42% têm perfil no Twitter e postam, em média, cinco mensagens por dia.
Embora as empresas que não têm Twitter também sejam citadas, o grupo que atua no microblog concentra 74% do volume total de mensagens trocadas sobre marcas no período.
Outros 11,2% das mensagens postadas que citam as empresas são retransmitidas a outros usuários. No setor de cosméticos, essa taxa chega a dobrar.
Sucesso
Algumas empresas entenderam o funcionamento das mídias sociais e fazem mais do que promoções ou divulgação de produtos e serviços.
No perfil da Sacks Perfumaria (@sacksperfumaria), cada seguidor representa uma doação de R$ 0,25 feita pela empresa para o Instituto Criar, dedicado à inserção de jovens de baixa renda no mercado de trabalho.
Outro exemplo é o perfil da Livraria Saraiva (@saraivaonline), que mantém um relacionamento bem pessoal no tom das respostas aos usuários, além de realizar concursos exclusivos para os usuários do microblog.
Em Porto Alegre, a rede Pizza Hut (@pizzahutpoa) abriu o perfil para sugestões de sabores de pizza enviados pelos seguidores.
"Recebemos 80 sugestões, numero que consideramos muito bom" diz a gerente de comunicação da empresa, Dana Chmelnitsky. "As cinco melhores foram escolhidas e colocadas em votação em nosso site". O prêmio para o ganhador será um jantar com 8 acompanhantes. (ALEXANDRE ORRICO)
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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 14 de abril de 2010.
ALEXANDRE ORRICO
Um ano se passou desde quando a padaria britânica AlbionCafe (twitter.com/AlbionsOven) começou a usar o Twitter para avisar seus seguidores quando uma nova fornada de pães quentinhos ficava pronta. De lá para cá, cada vez mais marcas ingressam no Twitter, em busca de uma fatia maior do mercado e aumento dos lucros.
As grandes empresas americanas parecem ter abraçado de vez as mídias sociais. Estudo realizado em fevereiro pela Society for New Communications Research mostrou que mais de um terço das 500 maiores companhias americanas listadas pela "Fortune" usam o Twitter de forma recorrente. Entre as cem primeiras do ranking, o índice chega a 50%.
No Brasil, a presença de uma empresa no Twitter pode dobrar a quantidade de mensagens geradas sobre a marca no microblog, segundo pesquisa realizada pelo iDigo (Núcleo de Inteligência Digital). Das 50 empresas pesquisadas, 42% têm perfil no Twitter e postam, em média, cinco mensagens por dia.
Publicitários entrevistados pela Folha são unânimes: o Twitter é uma ferramenta poderosa e fundamental para a marca de quem anuncia. O alto poder de propagação e o tamanho de sua audiência no Brasil -o Twitter é a segunda maior rede social do país, com 8,8 milhões de usuários- são alguns dos fatores citados.
Algumas empresas entenderam o funcionamento das mídias sociais e, apesar de grande parte dos perfis corporativos usar o microblog para promoções ou divulgação de produtos e serviços, já há perfis empresariais criativos.
Embora o Twitter seja o nome do momento, as empresas têm outras opções para se fazer presentes no mundo virtual. O Orkut, maior rede social do país, concentra um grande número de perfis empresariais -apesar de não chamarem tanto a atenção quanto no Twitter.
Gurus
Com a popularização do uso da ferramenta por empresas, nasceu uma indústria própria de gurus digitais, que escrevem livros e sites com dicas e prometem apontar caminhos para quem quer ter sucesso nos negócios usando o Twitter.
Confira, nesta edição, uma entrevista com Sarah Milstein, coautora do livro "Desvendando o Twitter", um dos primeiros livros sobre o serviço de microblog.
No Brasil, instituições conhecidas do país que focam no mundo dos negócios já têm cursos de mídias sociais nos quais o Twitter é destacado.
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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 14 de abril de 2010.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Língua portuguesa
Izabel Toscano
Publicação: 30/03/2010 09:16 Atualização: 30/03/2010 09:30
Pois, no último fim de semana, alemães, franceses, americanos, africanos e latino-americanos passaram duas tardes falando e pensando a língua portuguesa. Com deslizes e gafes previsíveis — e que muitas vezes geraram cenas engraçadas — gente dos quatro cantos do mundo impressionou os brasilienses com uma pronúncia dedicada e, em muitos casos, perfeita. Tanto que foi desnecessária a tradução simultânea, comum em eventos deste porte.
Na plateia, estudiosos, professores, alunos e gente curiosa. Nas mesas de discussão, escritores, críticos e acadêmicos daqui e do mundo. Todos reunidos — no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) — durante o Encontro Literário da I Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial. O objetivo: refletir sobre os desafios e os avanços da língua num contexto cultural já que, hoje, cerca de 230 milhões de pessoas falam português no mundo.
“O engraçado é que a pronúncia às vezes nos faz entender algo diferente. “Fascínio” vira “faxina”, na fala dos portugueses, brincou a professora Alessandra Morais, 35 anos. “É interessante vir a um encontro assim justamente para a gente ver as diferentes nuances da língua”, avaliou o servidor público João Junqueira da Silva, 28 anos.
Pois, se há fronteira entre os países e a própria língua, muitos concordam que ela está mais fluida. “Em Londres, o português é uma das línguas mais ouvidas no dia a dia”, afirmou o tradutor inglês David Treece.
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Demanda
E foi a tradução literária outro ponto de destaque no encontro. Para a tradutora Patrícia Vieira, é a relação afetiva entre a pessoa e o país que gera uma maior demanda por conhecê-la. “Para quem já teve algum contato com a língua, a tradução abre novas portas”, acredita.
O alemão Berthold Zilly impressionou com uma pronúncia beirando a perfeição. Tradutor de livros clássicos da literatura brasileira, ele lembrou que, lá fora, o Brasil está em evidência: “Graciliano Ramos e Machado de Assis, por exemplo, estão esgotados na Alemanha. E já existe uma negociação para que, em 2013, o Brasil seja o tema central da Feira do Livro em Frankfurt.”
A tradução, o mercado, a convivência com outras línguas, a inserção na internet e a música foram temas debatidos em seis mesas durante os dois dias — e despertaram para a valorização da língua. “Deveria ser um evento mais frequente. Mas o Brasil não se preocupava muito com esse assunto. Hoje tem dado mais importância à língua. A reunião de países que falam o mesmo idioma num único lugar é importante”, comentou o poeta Antonio Cícero.
Para o poeta Régis Bonvicino, a dificuldade em tornar encontros como esse mais habituais ainda reside no distanciamento histórico entre os países. “E também o provincianismo e o autoisolamento brasileiro que é grande. Temos uma abertura para a indústria cultural, mas somos fechados para a cultura erudita”, disse.
“Portugal é parecido com o Brasil. Lá ainda resiste um deslumbramento com relação ao estrangeiro, um sentimento de que o português é de Portugal. Acho que, por isso, esse encontro se torna algo tão extraordinário”, acrescentou o português e professor da Universidade Nova de Lisboa, Abel Barros Baptista.
OUTRAS LÍNGUAS
A convivência entre a língua portuguesa e as nativas foi tão polêmica que ultrapassou o tempo estabelecido. Mas todos concordaram que, apesar de ter sido imposta, a língua portuguesa acabou se incorporando positivamente aos países. Por duas horas, a poetisa guineense Odete Semedo intermediou a conversa entre o escritor Luis Cardoso de Noronha (Timor-Leste), a professora Carmen Tindó, o jovem escritor Ondjaki (Angola) e o professor Waldemar Ferreira Netto. “O português entrou na maioria dos países africanos pela colonização. Mas, após décadas, a língua se reinventou e tornou-se deles e nossa por direito. Os escritores fizeram uma revolução dentro da própria língua do colonizador, africanizando-a por dentro”, resumiu Carmen Tindó. Para Ondjaki (maior expressão da nova geração de escritores de Angola), o grande desafio é preservar as línguas pátrias. “O português é mais falado nas cidades. As línguas africanas ficaram no interior. Aprendemos o inglês desde crianças, mas deveríamos ter a possibilidade de aprender nossas línguas nacionais. É certo que existe uma evolução da língua; dizem que uma prevalece e as outras acabam desaparecendo. Mas não tem que ser assim”, disse ele.
A tradução abrindo caminhos
A primeira mesa de debates reuniu tradutores de peso. Bryan McCan, dos Estados Unidos, mediou a conversa entre Berthold Zilly (Alemanha), Florencia Garramuño (Argentina), Patrícia Vieira (Portugal) e Patrick Quillier (França). A reedição de livros já traduzidos e esgotados nos países, a tradução de textos teóricos e a maior circulação de produções brasileiras nos mercados estrangeiros permearam as reflexões durante 1h30.
A maioria dos tradutores reconheceu que a demanda é maior em relação a clássicos brasileiros como os de Machado de Assis e Guimarães Rosa. E reforçam que a tradução é fundamental como instrumento de ensino. “Ela ajuda os estudantes porque transmite a eles a riqueza da língua. Por isso é preciso a tradução de mais ensaios teóricos, já que há uma ideia de que o português é um língua apenas de escritores e não de pensadores da literatura”, pontuou Patrícia Vieira. “Temos que defender o que ainda não é canônico e que vem também da periferia”, completou Berthold Zilly.
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“O forte no Brasil é a cultura oral e não a letrada. E a música permitiu uma solução, com músicos que escrevem belas letras”, iniciou Helena Solberg. Para David Treece, fora do Brasil se conhece a música não pela qualidade de seus compositores, o que é uma falha. “Mas é a canção que nos dá a possibilidade de habitar e vivenciar outra cultura. O primeiro passo para esse diálogo linguístico ocorre por meio da música”, acredita.
O debate também gerou discussão entre o que é ou não poesia dentro da música brasileira. O que levou a um embate entre o poeta Régis Bonvicino, que estava na plateia, e Antonio Cícero. Este último resumiu: “Não se pode determinar isso. Uma boa letra de música é possivelmente (e não necessariamente) um bom poema. Exemplo do trabalho de Caetano Veloso, que tem letras que podem ser lidas como poema.” Bonvicino foi contra, iniciando uma discussão sobre a qualidade poética de Caetano. Com a polêmica, a mesa de debates, que já ultrapassava 1h30, foi encerrada. “Vamos promover as olimpíadas de letrismo contra os poetas”, ironizou Abel Baptista.
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Publicado no jornal Correio Braziliense em 30 de março de 2010.