quarta-feira, 14 de abril de 2010

Twitter

Negócios em 140 toques

Empresas usam Twitter e outras redes sociais para vender, comprar, divulgar produtos e falar com seus clientes

ALEXANDRE ORRICO


Um ano se passou desde quando a padaria britânica AlbionCafe (twitter.com/AlbionsOven) começou a usar o Twitter para avisar seus seguidores quando uma nova fornada de pães quentinhos ficava pronta. De lá para cá, cada vez mais marcas ingressam no Twitter, em busca de uma fatia maior do mercado e aumento dos lucros.
As grandes empresas americanas parecem ter abraçado de vez as mídias sociais. Estudo realizado em fevereiro pela Society for New Communications Research mostrou que mais de um terço das 500 maiores companhias americanas listadas pela "Fortune" usam o Twitter de forma recorrente. Entre as cem primeiras do ranking, o índice chega a 50%.
No Brasil, a presença de uma empresa no Twitter pode dobrar a quantidade de mensagens geradas sobre a marca no microblog, segundo pesquisa realizada pelo iDigo (Núcleo de Inteligência Digital). Das 50 empresas pesquisadas, 42% têm perfil no Twitter e postam, em média, cinco mensagens por dia.
Publicitários entrevistados pela Folha são unânimes: o Twitter é uma ferramenta poderosa e fundamental para a marca de quem anuncia. O alto poder de propagação e o tamanho de sua audiência no Brasil -o Twitter é a segunda maior rede social do país, com 8,8 milhões de usuários- são alguns dos fatores citados.
Algumas empresas entenderam o funcionamento das mídias sociais e, apesar de grande parte dos perfis corporativos usar o microblog para promoções ou divulgação de produtos e serviços, já há perfis empresariais criativos.
Embora o Twitter seja o nome do momento, as empresas têm outras opções para se fazer presentes no mundo virtual. O Orkut, maior rede social do país, concentra um grande número de perfis empresariais -apesar de não chamarem tanto a atenção quanto no Twitter.

Gurus
Com a popularização do uso da ferramenta por empresas, nasceu uma indústria própria de gurus digitais, que escrevem livros e sites com dicas e prometem apontar caminhos para quem quer ter sucesso nos negócios usando o Twitter.
Confira, nesta edição, uma entrevista com Sarah Milstein, coautora do livro "Desvendando o Twitter", um dos primeiros livros sobre o serviço de microblog.
No Brasil, instituições conhecidas do país que focam no mundo dos negócios já têm cursos de mídias sociais nos quais o Twitter é destacado.

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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 14 de abril de 2010.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Língua portuguesa

Encontro reúne intelectuais para discutir valorização da língua portuguesa

Izabel Toscano

Publicação: 30/03/2010 09:16 Atualização: 30/03/2010 09:30

Que Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste são países unificados pela cultura e pela língua portuguesa — apesar da diferença geográfica e de sotaque — já é sabido. Mas que o português gera tanta curiosidade fora das fronteiras desses países pode parecer uma surpresa.

Pois, no último fim de semana, alemães, franceses, americanos, africanos e latino-americanos passaram duas tardes falando e pensando a língua portuguesa. Com deslizes e gafes previsíveis — e que muitas vezes geraram cenas engraçadas — gente dos quatro cantos do mundo impressionou os brasilienses com uma pronúncia dedicada e, em muitos casos, perfeita. Tanto que foi desnecessária a tradução simultânea, comum em eventos deste porte.

Na plateia, estudiosos, professores, alunos e gente curiosa. Nas mesas de discussão, escritores, críticos e acadêmicos daqui e do mundo. Todos reunidos — no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) — durante o Encontro Literário da I Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial. O objetivo: refletir sobre os desafios e os avanços da língua num contexto cultural já que, hoje, cerca de 230 milhões de pessoas falam português no mundo.

“O engraçado é que a pronúncia às vezes nos faz entender algo diferente. “Fascínio” vira “faxina”, na fala dos portugueses, brincou a professora Alessandra Morais, 35 anos. “É interessante vir a um encontro assim justamente para a gente ver as diferentes nuances da língua”, avaliou o servidor público João Junqueira da Silva, 28 anos.

Pois, se há fronteira entre os países e a própria língua, muitos concordam que ela está mais fluida. “Em Londres, o português é uma das línguas mais ouvidas no dia a dia”, afirmou o tradutor inglês David Treece.



Para a maioria dos especialistas, uma das formas desse intercâmbio entre o português e outros países é a música. “Há pessoas que se interessam pelo português por causa da música brasileira, assim como os jovens se interessam pelo inglês por causa do rock”, avaliou o poeta Antonio Cícero. “Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, foram importantes na educação sentimental dos argentinos. A música continua sendo o maior difusor da língua brasileira”, acrescentou a tradutora argentina Florência Garramuño.

Demanda
E foi a tradução literária outro ponto de destaque no encontro. Para a tradutora Patrícia Vieira, é a relação afetiva entre a pessoa e o país que gera uma maior demanda por conhecê-la. “Para quem já teve algum contato com a língua, a tradução abre novas portas”, acredita.

O alemão Berthold Zilly impressionou com uma pronúncia beirando a perfeição. Tradutor de livros clássicos da literatura brasileira, ele lembrou que, lá fora, o Brasil está em evidência: “Graciliano Ramos e Machado de Assis, por exemplo, estão esgotados na Alemanha. E já existe uma negociação para que, em 2013, o Brasil seja o tema central da Feira do Livro em Frankfurt.”

A tradução, o mercado, a convivência com outras línguas, a inserção na internet e a música foram temas debatidos em seis mesas durante os dois dias — e despertaram para a valorização da língua. “Deveria ser um evento mais frequente. Mas o Brasil não se preocupava muito com esse assunto. Hoje tem dado mais importância à língua. A reunião de países que falam o mesmo idioma num único lugar é importante”, comentou o poeta Antonio Cícero.

Para o poeta Régis Bonvicino, a dificuldade em tornar encontros como esse mais habituais ainda reside no distanciamento histórico entre os países. “E também o provincianismo e o autoisolamento brasileiro que é grande. Temos uma abertura para a indústria cultural, mas somos fechados para a cultura erudita”, disse.

“Portugal é parecido com o Brasil. Lá ainda resiste um deslumbramento com relação ao estrangeiro, um sentimento de que o português é de Portugal. Acho que, por isso, esse encontro se torna algo tão extraordinário”, acrescentou o português e professor da Universidade Nova de Lisboa, Abel Barros Baptista.


OUTRAS LÍNGUAS
A convivência entre a língua portuguesa e as nativas foi tão polêmica que ultrapassou o tempo estabelecido. Mas todos concordaram que, apesar de ter sido imposta, a língua portuguesa acabou se incorporando positivamente aos países. Por duas horas, a poetisa guineense Odete Semedo intermediou a conversa entre o escritor Luis Cardoso de Noronha (Timor-Leste), a professora Carmen Tindó, o jovem escritor Ondjaki (Angola) e o professor Waldemar Ferreira Netto. “O português entrou na maioria dos países africanos pela colonização. Mas, após décadas, a língua se reinventou e tornou-se deles e nossa por direito. Os escritores fizeram uma revolução dentro da própria língua do colonizador, africanizando-a por dentro”, resumiu Carmen Tindó. Para Ondjaki (maior expressão da nova geração de escritores de Angola), o grande desafio é preservar as línguas pátrias. “O português é mais falado nas cidades. As línguas africanas ficaram no interior. Aprendemos o inglês desde crianças, mas deveríamos ter a possibilidade de aprender nossas línguas nacionais. É certo que existe uma evolução da língua; dizem que uma prevalece e as outras acabam desaparecendo. Mas não tem que ser assim”, disse ele.

A tradução abrindo caminhos

A primeira mesa de debates reuniu tradutores de peso. Bryan McCan, dos Estados Unidos, mediou a conversa entre Berthold Zilly (Alemanha), Florencia Garramuño (Argentina), Patrícia Vieira (Portugal) e Patrick Quillier (França). A reedição de livros já traduzidos e esgotados nos países, a tradução de textos teóricos e a maior circulação de produções brasileiras nos mercados estrangeiros permearam as reflexões durante 1h30.

A maioria dos tradutores reconheceu que a demanda é maior em relação a clássicos brasileiros como os de Machado de Assis e Guimarães Rosa. E reforçam que a tradução é fundamental como instrumento de ensino. “Ela ajuda os estudantes porque transmite a eles a riqueza da língua. Por isso é preciso a tradução de mais ensaios teóricos, já que há uma ideia de que o português é um língua apenas de escritores e não de pensadores da literatura”, pontuou Patrícia Vieira. “Temos que defender o que ainda não é canônico e que vem também da periferia”, completou Berthold Zilly.



A última mesa de debates — a mais concorrida pelo público — girou em torno de literatura e música. O português Abel Barros Baptista coordenou a conversa entre o poeta e compositor Antonio Cícero, o professor e tradutor David Treece (Reino Unido), a produtora e diretora de cinema Helena Solberg e o músico e escritor Hortencio Langa (Moçambique).

“O forte no Brasil é a cultura oral e não a letrada. E a música permitiu uma solução, com músicos que escrevem belas letras”, iniciou Helena Solberg. Para David Treece, fora do Brasil se conhece a música não pela qualidade de seus compositores, o que é uma falha. “Mas é a canção que nos dá a possibilidade de habitar e vivenciar outra cultura. O primeiro passo para esse diálogo linguístico ocorre por meio da música”, acredita.

O debate também gerou discussão entre o que é ou não poesia dentro da música brasileira. O que levou a um embate entre o poeta Régis Bonvicino, que estava na plateia, e Antonio Cícero. Este último resumiu: “Não se pode determinar isso. Uma boa letra de música é possivelmente (e não necessariamente) um bom poema. Exemplo do trabalho de Caetano Veloso, que tem letras que podem ser lidas como poema.” Bonvicino foi contra, iniciando uma discussão sobre a qualidade poética de Caetano. Com a polêmica, a mesa de debates, que já ultrapassava 1h30, foi encerrada. “Vamos promover as olimpíadas de letrismo contra os poetas”, ironizou Abel Baptista.

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Publicado no jornal Correio Braziliense em 30 de março de 2010.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

De novo ele! Genial como sempre.

sPASQUALE CIPRO NETO

"É consensual que (as) poucas leis brasileiras..."


Tenho a impressão de que muita gente teve dificuldade para perceber que as duas afirmações são equivalentes

NA COLUNA DA SEMANA passada, ao analisar a(s) bendita(s) frase(s) que encerra(m) as peças publicitárias de medicamentos ("A/Ao/Se persistirem os sintomas, o médico..."), afirmei, em tom meio jocoso, que "não entendo bem por que "o médico" e não "um médico", mas isso é outra história".
Na segunda-feira, a professora Priscila Figueiredo, que trabalha comigo na TV Cultura, disse-me que lera a coluna e, também em tom meio jocoso, afirmou que o uso do artigo "o" em "o médico deverá ser consultado" lhe dá a impressão de volta aos velhos tempos, como se o médico fosse uma espécie de pajé, o único da tribo. Eu complementei o que ela disse com a informação de que em muitos países existe a figura do médico (do serviço público) de família, o que torna razoável o uso do artigo definido. Por aqui, parece melhor optar mesmo pelo indefinido ("um médico deverá ser...").
Pois bem. Revirando a memória, lembrei-me de uma questão do último vestibular do Ibmec-SP, que, de forma muito interessante, aborda a questão do emprego do artigo definido. O enunciado da questão era este: "Compare estes períodos: I - É consensual que as poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam. II - É consensual que poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam".
Vou poupar o leitor do desfile das cinco opções (tratava-se de um teste de múltipla escolha). Vou direto ao ponto: o prezado leitor já sabe que diferença existe entre as frases? Já sabe onde está o xis do problema?
Vamos lá. Na primeira frase (em que há o artigo definido "as" antes de "poucas leis brasileiras"), afirma-se que no Brasil há poucas leis sobre crimes ambientais e que nenhuma funciona. Na segunda, afirma-se mais ou menos o contrário, ou seja, que, no geral, as leis brasileiras sobre crimes ambientais funcionam -só algumas (poucas) não funcionam.
No teste do Ibmec, a resposta correta era esta: "A presença do artigo definido, na frase I, permite inferir que a afirmação contém uma crítica à eficiência das leis ambientais".
Tenho a impressão de que muita gente teve dificuldade para perceber que as duas afirmações são equivalentes, ou seja, que o texto da resposta é uma "tradução" da frase I. Um dos empecilhos pode ser o vocabulário (o verbo "inferir", por exemplo, que significa "deduzir", "concluir").
Outro empecilho pode estar na própria capacidade do candidato de entender que, se na frase I se diz que "as poucas leis sobre crimes ambientais não funcionam", diz-se que as leis são poucas e não funcionam. Mutatis mutandis, os casos vistos hoje lembram outro, clássico, já abordado aqui algumas vezes -o das orações introduzidas pelo pronome relativo "que". Para refrescar a memória, leia estas duas frases: "A partir da semana que vem, os brasileiros que gostam de literatura poderão frequentar a mais nova sala de leitura do país, localizada..."; "A partir da semana que vem, os brasileiros, que gostam de literatura, poderão frequentar a...".
Pois bem. Qual é mesmo a diferença entre as duas construções? Se o caro leitor leu com atenção, percebeu que, na segunda construção, a oração "que gostam de literatura" vem entre vírgulas, certo?
Como o espaço está no fim, vou direto ao ponto: as vírgulas são usadas quando se quer generalizar a afirmação. Na segunda, portanto, afirma-se que, em geral, os brasileiros gostam de literatura.
Na primeira construção, sem as vírgulas, restringe-se o universo dos seres mencionados (os brasileiros, no caso). Moral da história: sem as vírgulas, afirma-se que essa parcela dos brasileiros (a parcela que gosta de literatura) poderá frequentar a mais nova sala... É isso.

inculta@uol.com.br

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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 08 de abril de 2010.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PASQUALE CIPRO NETO

"Se persistirem os sintomas..."


No fim do "reclame" (que saudade dos tempos dos "reclames"!), aparece, em letras bem grandinhas...

UFA! FINALMENTE alguém do meio publicitário ou do farmacêutico percebeu a pouca funcionalidade do uso das expressões "A persistirem os sintomas..."/ "Ao persistirem os sintomas...", ainda presentes em quase todas as peças publicitárias de medicamentos.
Como o caro leitor deve saber, essas peças (por lei?) terminam com as conhecidas e já citadas advertências, completadas com estes dizeres: "...o médico deverá ser consultado". Confesso que não entendo bem por que "o médico" e não "um médico", mas isso é outra história. Fiquemos com a bendita questão da opção entre "A persistirem" e "Ao persistirem", que, por sinal, já comentei neste espaço, há muito tempo.
O fato é que o tempo passa, e as mensagens dos leitores sobre essa questão não terminam. "Qual é a forma correta?", perguntam, como se só uma das duas fosse correta. Vamos lá: as duas são possíveis, corretas etc., o que não significa que são equivalentes. Não são. Em "A persistirem os sintomas...", temos a preposição "a" introduzindo uma oração que expressa ideia de condição, ou seja, uma oração condicional, equivalente a "Se persistirem os sintomas", "Caso persistam os sintomas".
Esse emprego da preposição "a" (introduzindo ideia de condição) é comum nos textos clássicos, jurídicos, filosóficos e mesmo em construções comuns no dia a dia, como esta: "A julgar pelo que vi ontem, não há boas perspectivas de solução do problema" ("A julgar pelo que vi ontem" equivale a algo como "Se julgar/caso julgue pelo que vi...").
Em dicionários brasileiros e portugueses, encontram-se exemplos como estes: "A ser essa a única solução, é melhor desistir" ("A ser essa a única solução" = "Se for/Caso seja essa a única solução"); "A caminharmos neste ritmo, não chegaremos a tempo" ("A caminharmos neste ritmo" = "Se caminharmos/Caso caminhemos neste ritmo"). Deve-se notar a alteração na flexão do verbo quando se troca "se" por caso".
E a forma "Ao persistirem os sintomas"? A coisa muda. O infinitivo introduzido por "ao" constitui oração de valor essencialmente temporal ("Ao persistirem os sintomas" = "Quando persistirem os sintomas").
Esse uso de "ao" com infinitivo é mais do que comum, como se vê em "Ao sair, apague a luz" ("Ao sair" = "Quando sair") ou em "Ao beijá-la, sinto os pés saírem do chão" ("Ao beijá-la" = "Quando a beijo").
No caso da publicidade dos medicamentos, faz muito mais sentido pensar em "A persistirem os sintomas", ou seja, na indicação da ideia de condição ("Se persistirem/Caso persistam os sintomas"). Mas, cá entre nós, melhor mesmo é fazer o que (ufa!) fez uma agência de propaganda (que, infelizmente, não posso nomear -só vi a peça publicitária uma vez, ou melhor, menos de meia vez).
No fim do "reclame" (que saudade dos tempos dos "reclames"!), aparece na tela, em letras bem grandinhas, a frase "Se persistirem os sintomas...", confirmada pelo locutor.
Convém aproveitar a ocasião para lembrar que, quando se usa a preposição "a", emprega-se o verbo no infinitivo, o que explica a obrigatoriedade da opção por "ser" em "A ser essa a única solução, é melhor desistir". A troca da preposição "a" pela conjunção "se" implica o uso de uma forma verbal finita -do indicativo ou do subjuntivo, portanto ("Se for essa a única solução/Se é essa a única solução, é melhor..."). É isso.

inculta@uol.com.br

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Publicado no jornal Folha de S. Paulo em 01 de abril de 2010.

sexta-feira, 26 de março de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Museu da Língua Portuguesa

Até o dia 27 de junho, quem for ao Museu da Língua Portuguesa poderá visitar a mostra temporária “ Menas: o certo do errado, o errado do certo”. Esta é a sexta exposição a ocupar o espaço das exposições temporárias, e reforça o papel do museu como importante espaço educador e difusor da língua portuguesa.

O próprio título da exposição é uma provocação. Mesmo sabendo que “menos” é um advérbio, portanto, invariável, quantas vezes já não ouvimos a “concordância” com o gênero feminino por pessoas das mais diferentes classes e idades. Para os curadores da exposição, os professores Ataliba T. de Castilho e Eduardo Calbucci, Menas está na fronteira entre tudo o que não vale e o vale-tudo. E essa provocação é a proposta da exposição que ocupa cerca de 450 m2 do Museu da Língua Portuguesa com sete instalações para enumerar nossos “erros” linguísticos mais comuns, entender por que saímos do padrão culto e discutir a amplitude e a criatividade da língua.*
*Leia o texto na íntegra no site da exposição.

Veja o site da exposição:
http://www.poiesis.org.br/mlp/expo/menas/index.html

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Organização das palavras na frase

PASQUALE CIPRO NETO

Lambanças de títulos e textos jornalísticos


O sujeito tem pelo menos duas namoradas, uma delas grávida, e durante uma prece mata a sogra, digo, uma das sogras

DIA DESSES, um site publicou esta legenda (talvez seja bom explicar que, nas artes gráficas e no jornalismo, "legenda" é o texto que comenta, explica ou intitula uma imagem): "Companheiros em 2010, Massa encontra Alonso na Espanha". A legenda estava sob uma foto dos dois pilotos da Ferrari.
O prezado leitor já percebeu onde está o nó da frase? A quem se refere o termo "companheiros"? Aos dois pilotos, é óbvio. Mas os nomes dos pilotos aparecem coordenados, ou seja, exercem mesma função na estrutura do texto? Não e não. "Massa" é sujeito de "encontra"; "Alonso" é complemento dessa forma verbal.
O emprego de "companheiros" talvez decorra de um processo mental ultrarrápido: o redator pensa nos dois pilotos, que em 2010 serão companheiros na Ferrari, e já dispara o plural, mesmo que estruturalmente esse plural não se sustente. Qual seria a construção pertinente? Basta optar pelo sujeito composto: "Companheiros em 2010, Massa e Alonso se encontram na Espanha".
Para que se mantivesse o passo "Massa encontra Alonso", seria necessário alterar a estrutura. Poder-se-ia optar, por exemplo, por algo como "Na Espanha, Massa encontra Alonso, seu companheiro em 2010".
Vamos a outro título mal redigido e confuso, também publicado num site: "Mãe é presa por deixar filhos sozinhos em Jundiaí". Qual seria o papel da expressão "em Jundiaí"?
Indicar o lugar em que a mãe relapsa foi presa ou o lugar em que os pobres pimpolhos foram abandonados pela mãe desnaturada? Sabe Deus!
Pois bem. Quando se lê a notícia, descobre-se que... Melhor transcrever o trecho inicial: "Uma mulher de 22 anos foi presa em flagrante hoje, em Jundiaí (SP), depois de sair de madrugada e deixar os filhos sozinhos em casa". Pois é, caro leitor. Para que isso ficasse claro (no título), bastaria ter posto "em Jundiaí" no início do período: "Em Jundiaí, mãe é presa por deixar filhos sozinhos".
Quer mais? Opa! O que não falta é exemplo. Vamos a mais um, também provindo de um site. Prepare-se, caro leitor, porque a coisa é braba. Lá vai: "Britânico confessa assassinato da sogra durante oração". Pode? Estamos diante de um rito satânico. Está certo que muita gente prefere o Diabo à sogra, mas matar a pobre durante uma oração... Haja espírito maléfico, hediondo, cruel!
Mas vamos à notícia: "Um homem britânico foi condenado após ter confessado o assassinato da mãe de sua namorada grávida durante uma prece captada por um grampo montado em seu carro pela polícia". Xi! Cruz-credo! A coisa é ainda pior! O sujeito tem pelo menos duas namoradas, uma das quais está grávida, e mata a sogra, digo, uma das sogras (a mãe da namorada grávida) durante uma prece (ao Demo, certamente).
Bem, vamos tentar melhorar a redação do título? Que tal deixar claro o local do assassinato, digo, o momento da confissão do crime? Esse título perderia seu tom ultralambão com a simples inversão da expressão "durante oração": "Durante oração, britânico confessa assassinato da sogra". Simples, não? Então por que diabos de motivos o pessoal das Redações não enxerga essas coisas?
O texto também tem problemas. A sequência apresentada não corresponde aos fatos. Ninguém é condenado após confessar, ou será que a polícia montou o grampo, o sujeito caiu na arapuca, isto é, deu com a língua nos dentes e, flagrado, foi imediatamente julgado e condenado? Os conectivos ("após", no caso) não podem estabelecer nexos falsos. O que há nesse caso é uma relação causal, ou seja, o homem foi condenado, sim, mas não após ter confessado (nem por ter confessado). Ele foi condenado pelo assassinato (que confessou durante uma prece). Precisão é precisão. É isso.
inculta@uol.com.br

Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo do dia 26 de novembro de 2007.